Um dia em Itapuã, Salvador, Bahia


Farol de Itapuã

Farol de Itapuã

– O que é real? Dói?
– Ás vezes
– Acontece de repente?
– Demora um tempo. Em geral, quando te tornas real a maioria do teu pêlo já caiu, os olhos se perdem e ficas com as articulações soltas. Mas essas coisas não importam, porque agora você é real. Só é feio para quem não é real.

The Velveteen Rabbits

A verdade engasga. Principalmente com os bem-intencionados. Declarar a verdade é tão simples como agarrar uma taça de vinho. Ninguém precisa entender para saber apreciar. Uma vez que se prova um vinho melhor, logo rejeita o que era apenas doce. A verdade ali, na ponta da língua, latejando, consumindo os músculos, revelada na face, no comportamento, e então, recua-se. E volta a avançar a seu ritmo.

O amor encontra sua dignidade na vergonha. Envergonhar-se de um amor é ter orgulho dele. Se está escondido, é porque o amor está recolhido ali. Vá em frente. Acredite, é puro disfarce, vivemos disfarçados de normalzinho, de ponderado, racionais, retraídos, mas a verdade amigo toma atitudes corajosas, como namorar por horas numa escada de pedras vermelhas em um dia de semana qualquer roubando vinhos e comendo pizza. O vizinho se espicha para olhar. As escadarias – sim, em Itapuã, há escadas – são o tapete vermelho do lar. Sobe-se devagar, propositadamente para demorar.

A cidade de Salvador parece ter vergonha de Itapuã. Suja, abandonada, caótica, linda, charmosa, poética. Um caso confesso de amor.

Um amor que não se compreende muito bem. E esta é a melhor parte. Até tentamos, mas não se pode racionalizar o amor. É a simplicidade da vontade de estar lá sem pensar muito. É não dizer nada a ninguém. Se mostra nos cartões postais, onde não se pode dizer muito, portanto sugestiona, mas não se revela.

Salvador esconde seu grande amor. Fala da música, da gastronomia, das praias, mas nada se diz sobre a poesia. Ninguém fala do samba. Há uma estátua de um poeta que espera eternamente pela sua companhia. Todos estão do outro lado da cidade, onde tudo parece perfeito. Nem imaginam que é na imperfeição que vive a beleza.

O pescador Fabinho me convida para um café da manhã na padaria mais próxima. Pão com manteiga, café e suco de laranja. Pergunto a ele o que é mais importante em Itapuã. Me responde que não seleciona o que é importante, porque torna importante aquilo que ele escolhe.

Ele está certo. O amor vem do nada. Me apaixonei pela maneira como suas águas quebram de forma diferente a qualquer outra praia de Salvador. Não preciso de motivos.

Eu me recordo, quando ainda no ginásio, tinha um professor de química que morava em Itapuã e saía da escola conduzindo seu Fusca. Inteligentíssimo e disciplinador na sala de aula, dentro do Fusca e do destino que o esperava, se desarmava. Sorria e acenava para todos, como se estivesse indo para o paraíso. E estava. Só agora eu sei.

Muitas fotografias depois, estava eu num trailler bebendo cerveja e fazendo as últimas fotografias do farol que guia quem deseja se encontrar. Eu tinha que me despedir antes do ano-novo, mas fui ficando.

Não tive tempo de banhar-me em suas águas, entendi que seria um sacrilégio como fazer amor e entrar no chuveiro logo em seguida. Não posso deixar que seu perfume e o sopro de suas palavras desçam pelo ralo.

Como o dia, o bairro envelhece e eu não percebo. Talvez envelheça para o prefeito que só vai até lá em época de eleição. Vai envelhecer na beleza do que é real, nos banhos de Sol, mar e vento.

Envelhecerei com ela, a bela Itapuã.

 

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A história por trás da foto (1)


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Fiz esta foto em 08 de março de 2012, numa reportagem para a Circus Magazine, “O Hospital que Agoniza“, junto com a fotógrafa Amanda Oliveira. Percorremos os corredores do hospital Aristides Maltez, em Salvador, Bahia, Brasil, com o objetivo de conhecer a realidade do único hospital da cidade que faz tratamento gratuito em pacientes com câncer. O hospital se encontrava sob ameaça de fechar as portas por falta de recursos. Pelo que sei, infelizmente, ainda está sob a mesma situação.

Conseguimos permissão para visitar os leitos, como o da foto. E fiz o clique sempre preocupado em não expor os pacientes publicamente. Foi surpreendente notar que o paciente estava “assistindo a ele mesmo” na TV. Ele assistia a uma novela, e na cena, um ator interpretava um paciente num leito de hospital. Após ouvir o clique da máquina o paciente olhou para mim. Olhou para a TV. Voltou-se para mim, e sorrindo me disse, “veja, ele está como eu”.