Dicas para fotógrafos de viagens (Parte 4)


Praia da Joaquina, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil

Praia da Joaquina, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil

É tudo subjetivo.

O assunto de uma fotografia não é, por exemplo, uma canoa na lagoa ou duas garotas de biquíni sentadas numa pedra na praia da Joaquina em Florianópolis. Isso apenas faz parte do assunto. Os assuntos de fato são: emoção e amor. O intangível, aquilo que você tenta transmitir através da imagem.

E não é possível ser tímido quando se está fotografando. É como no amor. No amor, não há espaço para a timidez. A mulher se entrega – e se descobre – e conforme a intensidade desta descoberta, irá revelar sua nudez. Suas melhores qualidades e defeitos. E você irá amá-la por isso.

Assim acontece com a fotografia. Os lugares e as pessoas apenas irão se revelar se você também se permitir. Portanto, deixe de lado a timidez, esqueça tudo que não faça parte do seu assunto, ou seja, esqueça aquilo que não lhe traz emoção e que você não ama.

Ver as coisas deste modo transformou completamente a maneira como fotografo. Descobri que não basta se apaixonar, é preciso amar. E não é fácil, pois a paixão facilita o encontro, o amor dificulta.

Não entendo porque os fotógrafos se incomodam tanto que sua arte tenha sido tão popularizada. Que agora, todos postam fotos nas redes sociais em segundos. Seria como um escritor não aceitar que todos soubessem ler e escrever. Seria como um amante não permitir que os demais também provassem do amor. É egoísmo puro. Mas tocar alguém com um texto não é fácil. Amar, muito menos. O mesmo vale para a fotografia.

Certa vez, quando eu estava no museu Guggenheim de Bilbao, na Espanha, parei em frente a uma pintura feita por Modigliani – meu artista predileto. Fiquei observando aquela linda mulher, a paixão da sua vida. Ao meu lado estava uma senhora extremamente elegante. Notava-se que tratava de uma matriarca. Ela então começou a chorar. E balbuciou as seguintes palavras: “Eu tenho dúvidas… estou cheia de dúvidas…”. Era óbvio que aquele quadro representava algo muito forte para ela. Talvez estivesse observando a si mesma, recordando-se de um momento de sua vida em que não teve coragem de viver com seu grande amor ou mesmo memórias de uma filha ou uma amiga. Ou talvez nada disso. Mas a pintura de Modigliani a comovia e ela chorava copiosamente – mas com bastante elegância, claro. Era tudo subjetivo, mas Modigliani a tocou profundamente.

E se você ama fotografar, prepare-se, pois o amor é insaciável, quanto mais você tem, mais irá querer. A única coisa que não devemos temer é o próprio medo. Sim, estou morrendo de medo. Amar, dá trabalho.

Clique aqui para ver a galeria com as primeiras fotos que fiz em Florianópolis.

Vejam também:

Dicas de fotografias de viagens (Parte 1)

Dicas para Fotógrafos de Viagens (Parte 2)

Dicas para Fotógrafos de Viagens (Parte 3)

Dicas para fotógrafos de viagens (Parte 3)


Sapatos Vermelhos: Foto: Marcio Pimenta

As vezes é assim, não estamos num bom dia, mesmo quando a culpa não é nossa. Tudo o que parecem desejar é caos em sua vida, quando tudo o que você quer é a sorte de um amor tranquilo, já dizia Cazuza.

Mas isso não existe. As coisas não são assim.

Ainda mais quando aparece alguém que quer impedir de você viver com o seu amor tenta fazer um pacto com o capeta.

Hoje cedo recebi a ligação de um pai-de-santo que conheço lá da Bahia. Ele me disse, “encomendaram trabalho aqui no terreiro contra você”. Fiquei assustado, claro. Nunca chutei macumba. Sei lá, respeito estas coisas.

O pai-de-santo continuou, “Pediram coisa pesada mesmo. Eu até falei para o rapaz, ´Precisa de tudo isso, mizifio?´”. “Tudo pai-de-santo, faça o pacote completo, sem dó, quero tudo”

“Hómi ruim”, pensou o pai-de-santo, mas trabalho é trabalho e ele fez o pacote completo. Me ligou para avisar só por peso na consciência mesmo. “Vamos ver se ele é bom mesmo”, teria dito o contratante com aquela curiosidade sacana depois de pagar ao pai-de-santo pelo trabalho, pedir anonimato e sair de lá com aquele sorriso de garantia e satisfação.

Bom, a tal pessoa não pode reclamar da execução do trabalho. Saí para fazer fotos hoje e deu tudo errado. Cartão de memória que engasgou e não lê e grava nem com reza brava, troquei de cartão e fiquei duas horas frente a uma árvore esperando a melhor luz e um único sujeito que passasse por ela para que eu pudesse fazer uma boa foto, mas mesmo morando numa cidade de 7 milhões de habitantes ninguém quis dar as caras neste domingo e me vi forçado a voltar para casa sem a tal foto, depois disso houve um leve terremoto como que me avisando, “vai para casa, hoje não é o seu dia”.

Mas o tal do contratante não contava que sou persistente. Teimoso. Tinhoso, diria minha avó. Vou até o fim do jeito que dá.

Então sentei debaixo da tal árvore, abri minha garrafinha de água e pensei como a gente sempre está tentando enquadrar tudo, seja no amor ou na fotografia. Queremos tudo na mais perfeita ordem.

Bom, então entendi que as vezes menos é mais. As vezes está tudo lá, mas pensamos que para que tudo saia perfeito falta algum elemento, quando na verdade este tal elemento que esperamos só irá subtrair no impacto da história que queremos contar.

Então é a hora de nos livrarmos das distrações, do sujeito que encomendou o “trabalho”, por exemplo. Esquecer aquilo que não importa. Esta é a arte da fotografia e do amor. Não se deixar se distrair com aquilo que você não controla e simplesmente excluir e focar-se no que realmente importa.

Quando amamos estamos atentos a pessoa amada. Queremos saber mais sobre ela, passar horas conversando, entendendo suas emoções, seus desejos, suas alegrias e dores, aprendendo cada dia mais sobre ela e iremos perceber o quanto ainda há para conhecer quanto mais ela se mostra. E é um circulo vicioso, e delicioso, sem fim.

O mesmo é com a fotografia. Você precisa estar atento à história que se apresenta à sua frente. Quais emoções ela lhe transmite e que você gostaria de passar para outras pessoas. Então você precisa aceitar que algumas coisas você não possui controle e que precisa excluir as distrações que poderiam enviar uma mensagem errada para as demais pessoas.

Então vi a garotinha tímida de sapatos vermelhos. Assustada, não conversava com ninguém, mas queria mostrar-se ao mundo. Sempre na mesma pose, do mesmo jeito. Todas as suas fotografias eram repetições de tudo que já havia feito. Mas calçava os tais sapatos vermelhos. Uma dúvida sobre ela mesma.

Inteligente, sonhadora, apaixonada pelas pessoas e ao mesmo tempo assustada pelas relações que poderia ter com elas. Enfim, uma garotinha de verdade. E foi isso que vi, algo simples, belo e verdadeiro. Nada lhe falta.

Quanto mais você tenta dizer com sua fotografia, maior a chance de você não dizer nada. Escolha o que realmente lhe toca e concentre-se nela. Exclua as distrações e não espere pelo elemento “que falta”.

Não falta nada. Está tudo ali na sua frente. Você só precisa se movimentar. Buscar um ângulo, uma nova perspectiva sobre o tema. Não se preocupe, você só precisa confiar em si mesmo e com o tempo isto irá se tornar intuitivo.

Menos, é mais.

Continue lendo:

Dicas para fotógrafos de viagens (Parte 1)

Dicas para fotógrafos de viagens (Parte 2)

Dicas para Fotógrafos de Viagens (Parte 4)

portfolio

Entrevista: Evandro Teixeira


Tarde de sol muito quente em Salvador. Os barcos de pesca balançam suavemente na praia do Rio Vermelho. O céu está quase sem nuvens e alguns pescadores já se encontram em terra. Eles levam os peixes para a pesagem. Da varanda do restaurante Visca Sabor & Arte, onde me protejo do calor, posso ver suas faces felizes. Tiveram um bom dia. 

Estou aguardando o fotojornalista Evandro Teixeira. Ele chegou antes do horário que havíamos combinado. Subiu as escadas e logo o seu olhar curioso apontou em minha direção. Estava acompanhado de uma assessora de imprensa contratada pelo centro cultural. Uma bela mulher, negra e de sorriso fácil.

Evandro vestia uma camisa de gola e botões, estampada com pequenos quadriculados. Vestia ainda uma bermuda, também quadriculada, de bolsos largos e um tênis Mizuno com meias brancas. Em seus ombros uma câmera Panasonic Lumix DMC-FZ100 equipada com lentes Leica.

Bastante gentil, ele se senta ao meu lado e antes mesmo de começarmos a entrevista a dona do estabelecimento nos interrompe e oferece o cardápio a Evandro. Ele pede uma carne-do-sol com aipim e um suco de limão sem gelo. “Você não vai querer nada?”, ele me pergunta.

“Apenas uma água com bastante gelo”, respondo enquanto estou preparando o gravador.

Ele sorri e pede para que me sirvam.

Estar atras das lentes de alguma forma representa também a solidão?

A vida de fotógrafo é de solidão, somos andarilhos caminhando entre alegrias e tristezas e na vivência destas emoções vamos construindo nosso conhecimento. Certa vez eu estava fazendo uma cobertura da visita da Rainha Elizabeth ao Brasil e nos serviram caviar. Ao sair de lá fui registrar uma tragédia numa favela. Foi solidão também quando cobri o massacre na Guiana Inglesa, quando o reverendo Jim Jones conduziu mais de 900 pessoas a morte. É uma loucura! Então vivemos estas mudanças muitas vezes e as vezes tudo acontece num mesmo dia. E temos que saber lidar com isso.

Fotografia é mais técnica ou intuição? 

É um conjunto de cada coisa. Por exemplo, há uma polêmica sobre a foto de Robert Capa feita durante a Guerra Civil Espanhola. Alguns alegam que a foto dele é uma montagem. Mentira! Eu até dei um depoimento sobre isso. Não é uma montagem! Quando se faz montagem há uma preocupação em atingir a perfeição e a foto do Capa não é perfeita tecnicamente. Você pode observar que ela está ligeiramente tremida, o enquadramento cortou o pé, mas ela é uma foto de momento, o momento decisivo da imagem. É a mesma coisa com a foto que fiz do estudante de medicina que morreu na queda enquanto era perseguido por policias no Rio de Janeiro, em 1968. Se você prestar atenção ela está ligeiramente tremida, porque foi uma foto feita com câmera na mão, correria e não estava com as regulagens de velocidade adequada a aquele momento. Como também foi a foto da Rainha Elizabeth, estava um tumulto e encontrei a oportunidade de colocar a câmera dentro do carro. A velocidade do obturador estava baixa e eu só tive aquela oportunidade, porque logo em seguida o segurança percebeu e então ele me empurrou e quebrei o cotovelo. Então a foto ficou ligeiramente tremida. Portanto, cada momento é um momento e cada situação uma situação.

Para um fotojornalista, o que é mais importante, a técnica ou o conhecimento sobre o tema?

Acima de tudo o conhecimento sobre o tema. Ele tem que estudar sobre o assunto que está acompanhando, que saiba quem está entrevistando ou fotografando. Claro que nem sempre você tem tempo para estudar tantos temas, mas você tem que fazer o melhor. E a técnica vem depois disso, por que se você estuda saberá o momento e nem sempre a técnica irá prevalecer.

A tecnologia deu maior liberdade aos fotógrafos. Houve uma redução na técnica?

Veja bem, neste sentido ficou um pouco massificado. A câmera digital é muito boa para o jornalista, ela tornou tudo mais prático. Não precisamos mais levar todo aquele material pesado, nem revelar fotos em banheiro de hotel, processo que nos tomava muitas horas. Até mesmo já fui expulso de hotel! Me lembro que nas Olimpíadas de Sidney em 2000, Torben Grael estava competindo numa regata e venceu. Levei oito horas do momento em que fiz a foto até transmitir para o jornal. E ainda tive a ajuda da Kodak, que havia montado um laboratório e revelava os filmes dos fotógrafos que cobriam o evento. Exatamente quatro anos depois, já usando os recursos digitais, nas Olimpíadas de Atenas, novamente fiz uma foto do Torben Grael segurando a medalha de ouro e minutos depois a foto já estava no Brasil.

Mas com as câmeras digitais, esta coisa de todo mundo ser fotógrafo, banalizou um pouco a imagem. Mas claro que qualidade sempre será mais importante que a quantidade. Então na época das câmeras analógicas, quando nem mesmo tínhamos motor para rodar o filme, como a câmera que usei para fazer a foto da queda do motociclista, eu só tinha uma única oportunidade. Eu não podia disparar muitas fotos, era apenas um fotograma. O mesmo com a foto da Rainha Elizabeth. Também com a foto do estudante. Era instantâneo, o momento, o impacto. Então tínhamos muita coisa para considerar: velocidade, abertura do diafragma, foco, luz, olhar, enquadramento. Então você tinha que ser muito rápido para aliar tudo isso em frações de segundo.

Hoje com estas câmeras digitais, eu inclusive uso também, as pessoas se acostumaram mal, elas disparam para depois selecionar e quando usávamos analógica nós selecionávamos para depois disparar. Em eventos de futebol, por exemplo, eu vejo colegas mais preocupados em selecionar e apagar as imagens olhando no visor da própria câmera do que estar buscando o momento, a foto perfeita. Então a bola está lá rolando e eles olhando para a bunda da câmera selecionando imagens. Então mesmo usando digitais, eu continuo me preocupando é com o momento, deixa para selecionar quando chegar na redação ou em casa.

Você ainda usa equipamentos analógicos?

Tenho quatro Leicas. Deixa eu te contar uma coisa, eu fui fazer um livro para a editora Record, “Vidas Secas”, e por três meses refiz o roteiro do Graciliano Ramos. E queria refazer este caminho usando a minha Leica, aí a editora me ligou e disse que precisava do material com urgência. Fui até o sujeito que me vendia os filmes e ele me disse, “Evandro, não tenho os cento e cinquenta filmes que você precisa, tenho apenas uns vinte e terei que pedir o restante de Nova York”. Fui até o Tiago, o nosso técnico de laboratório e ele me disse: “Evandro, você está louco que não vou revelar estes mais de 100 filmes para você em uma semana. Precisarei de um mês ou dois”. Então fiz os cálculos de tempo e custo e vi que não sairia por menos de quinze mil reais. Então fui para Alagoas com uma digital, no modo preto e branco. Então todos os dias eu e meu design estudávamos o livro Vidas Secas e na volta do trabalho nos sentávamos na varanda do hotel e editávamos o material e enviávamos para a editora. Quando retornei o livro já estava praticamente pronto. O mais trabalhoso era justamente selecionar o que não queríamos.

A fotografia registra a história, mas as vezes é a fotografia quem constrói a história.

A fotografia ajuda a mudar a história. É o seu papel da denúncia. Por exemplo, quando o técnico Carlos Alberto Parreira foi flagrado por um fotojornalista carregando aquelas muambas na volta da Copa de 1994 nos Estados Unidos. Ou o general norte-americano que disparou aquele tiro num vietnamita indefeso. Aquela foto ajudou a acabar com a guerra. Veja também o que aconteceu agora no Iraque, quando soldados norte-americanos fizeram fotos humilhando os presos. Eles se foderam com a brincadeira deles. Então a fotografia tem esta importância na construção da história.

Foi um momento inusitado. Mas também de muita pesquisa, de busca. Eu ficava intrigado, porque antes de ele sair do boxe ele olhava para o Ron Dennis e piscava. Então aquilo era ele dizendo ao Ron Dennis para que ligassem o motor e ele pudesse sair dos boxes. E eu já tinha visto isto antes e ficava intrigado, ´Para que este filho da puta pisca o olho antes de sair dos boxes?. E então ficava de longe com minha teleobjetiva de 300mm acompanhando e pensava, ´se ele piscar o olho hoje ele está fodido, porque vou registrar´. E finalmente consegui!

Sobre Neruda.

As melhores recordações e as mais tristes. Fui o único quem conseguiu fotografa-lo morto. E claro que profissionalmente isso foi um grande feito. Mas triste porque era um grande poeta, um prêmio Nobel, que estava ali desgostoso e sendo massacrado pela ditadura. Não éramos amigos, mas nos conhecemos através do Jorge Amado.

Os brasileiros, em geral, mesmo quando possui recursos, lêem pouco. Depois que domina a técnica, o fotojornalista brasileiro abandona a literatura acreditando que já é auto-suficiente?

Sim, isso acontece muito. Poucos frequentam exposições, ou estudam o tema. Eu compro todas as revistas de fotografia, devoro os livros sobre o tema. Os profissionais atuais não fazem isso. E eles devem entender que o mundo é isso, este eterno aprendizado. Se não puder comprar, vá na livraria, tira uma casquinha. Leia o livro gratuitamente.

Dicas para fotógrafos de viagens (Parte 2)


Conte a história de suas férias como se estivesse contando uma história de amor.

Você encontra um amigo na rua e diz para ele, “Conheci a mulher da minha vida! Ela é sensacional! Quando acordo ao lado dela é a voz dela que me tranquiliza, o seu perfume na minha cama, o beijo naqueles doces lábios antes de dormir, o carinho daquelas mãos, há vida nos teus sorrisos, somos sensacionais juntos…”

E você gostaria de continuar falando dela por dias, completamente desorganizado e confuso, mas teu amigo lhe interrompe com as perguntas clássicas:

– Calma! Me diz, onde e quando vocês se conheceram? O que ela faz? Como ela é? Quero saber tudo desde o início.

Entenderam?

As pessoas adoram histórias. E um bom contador de histórias narra de forma a envolver seus ouvintes para que eles se interessem pela história que você tem para contar. O mesmo acontece com as fotografias de viagens.

Ninguém quer ver suas 400 fotos da viagem a Europa. Cansa. Sim, foi uma viagem maravilhosa e você tem muito a contar. Mas nem tudo é realmente importante. Seria como contar a história sobre a mulher da sua vida e antes precisasse falar das 30 namoradas que você teve antes. Elas não importam mais, pois ela é diferente de todas que você já conheceu, certo? Então concentre-se no que realmente importa.

O que queremos transmitir são as histórias de nossas viagens. Então é muito importante que ao mostrar suas fotos você considere que está contando uma história com início, meio e fim.

O objetivo é capturar ou insinuar uma história através da fotografia. Uma composição de diversos quadros que façam a narrativa com mais detalhes e amplitude do que pode fazer uma única imagem (ou 400 imagens!).

O ensaio fotográfico é um meio poderoso de expressar uma visão.

Como fazer?

Comece pela ambientação. São as fotos amplas. Estas imagens tem como objetivo transmitir a mensagem: é aqui que a história irá acontecer. Ela estabelece o cenário, e geralmente, o clima. É como se você estivesse dizendo, “a conheci numa ilha na Toscana e fazia um lindo dia de Sol”.

Depois disso, vem as fotos médias. São imagens que se aproximam da ação. Elas deverão dizer: é sobre isso que a história trata, e estes são os personagens. (Ainda que a história não seja sobre pessoas, os personagens podem ser animais, o clima ou simples objetos). Agora você está naquela fase, “Haviam muitas pessoas na ilha, excelente música, alto astral, etc. Eu estava bebendo com uns amigos e a observava de longe. Ela estava com umas amigas e notei que tinha olhares curiosos sobre mim.”

Agora vem a parte de contar os detalhes da sua viagem. Trata-se das imagens mais fechadas, aproximadas. Os detalhes da história. No caso de um ensaio sobre cavalos, ela pode ser um detalhe da sela do cavalo, por exemplo. No caso de um ensaio sobre o clima, pode ser um velho barômetro ou um carro danificado pelo granizo. Agora você pode contar todos os detalhes sobre como conheceu a mulher da sua vida. “Trocamos contatos e nos dias seguintes começamos a conversar por telefone, e-mail, etc. Foi quando finalmente decidimos nos encontrar. Então veio o beijo. O beijo doce. Foi perfeito desde o primeiro momento. Ela usava um vestido branco e de flores azuis. Deslizei minhas mãos sobre o seu corpo e fui tateando até sentir cada detalhe dela. E então fizemos amor como se soubéssemos que aquele era o primeiro dia do resto de nossas vidas.”

Finalmente vem o retrato. Um retrato mais fechado ou busto – geralmente um retrato ambientado. É quando você conta os detalhes sobre como ela é. “Ela é pequena e tem cabelos negros. Em certo momento ela chegou na varanda da minha casa e os ventos balançaram aqueles cabelos como se estivesse fazendo carícias. Ela então voltou-se para mim com um sorriso que era pura vida.”

Agora vem o momento. Fotografias que capturem os gestos, uma troca ou a ação. Essa é a foto “Uau!!!”. Agora você está dizendo para o seu amigo, “O caminhar dela me seduz. É leve como uma cicatriz. Tem um olhar tímido, apaixonado. É uma mulher que parece nunca ter recebido a atenção que merecia. Tive sorte amigo, pois quando estamos juntos ela se entrega completamente. Nosso encontro foi um acidente, um maravilhoso acidente. E o melhor de tudo foi quando ela me visitou na última vez: procurei por ela, e estava escondida debaixo dos lençóis rindo pela travessura como se tivesse oito anos de idade. É amigo, antes dos meus olhos fecharem, é a imagem dela que quero ver.”

Bom, seu amigo está empolgado com a história, mas tem mais o que fazer. Então você precisa de um fechamento. A foto que encerra tudo. O capitulo final. Este tipo de foto oferece alguma resolução ou simplesmente um lugar natural para terminar a história. Pode ser o pôr-do-Sol sobre a cidade de Firenze, por exemplo. Ou todo o grupo de amigos sob o Arco do Triunfo em Paris.

Ah! Sobre a história de amor, espero você saiba exatamente o que fazer para que ela não tenha um fim.

Vejam também:

Dicas de fotografias de viagens (Parte 1)

Dicas para fotógrafos de viagens (Parte 3)

Dicas para Fotógrafos de Viagens (Parte 4)

Até a próxima!

Dicas para fotógrafos de viagens (Parte 1) [Atualizado]


Bem disse Amyr Klink sobre a experiência de viajar, “Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver”.

No caso dos fotógrafos, viajar não apenas deve ser visto como uma experiência profissional, mas também pessoal. Um conselho poderoso: gaste menos dinheiro com câmeras ultra-sofisticadas e lentes luminosas, ou carros e hotéis de luxo. Dedique-se a viajar. Ao retornar de viagem você saberá mais sobre você mesmo e esta experiência ninguém poderá tomar de você. E acredite: um dia ela lhe será bastante útil.

Como fotógrafo viajante, atualmente em temporada pelo Chile, dou 5 dicas para os colegas que pretendem expandir seus conhecimentos. Se você não é fotógrafo profissional, não se preocupe. Estas dicas valem para você também.

1. Abra sua mente

Antes de viajar, seja para um país, estado ou mesmo a cidade vizinha, sempre buscamos reunir o máximo de informações possíveis através de amigos, guias de viagens, pesquisas na internet, etc. É claro que você irá querer fotografar os lugares clássicos. Se vai a São Paulo certamente irá querer fotografar a Avenida Paulista e o Mercado Municipal. No Rio de Janeiro irá querer registrar Ipanema, o Cristo Redentor, etc. No Chile irá querer subir ao Valle Nevado e capturar as pessoas descendo a montanha velozmente com seus skis.

Não há mal nenhum nisso, dedique alguns dias para os pontos turísticos clássicos, afinal você não irá querer voltar da viagem sem conhecê-los. Mas depois disso, “esqueça” o mapa no hotel e abra a sua mente. Entre por ruas e becos, sente-se num café despretensiosamente e aguarde. É melhor dedicar mais horas a um único local que vários locais em poucas horas. Você irá perceber que há uma uniformidade de pessoas e comportamento pelo local. Então espere a melhor luz e movimento e faça a sua foto. Você terá então um registro do que é real, da cultura e do cotidiano do lugar.

2. Desenvolva o seu olhar

Antes de partir, pesquise. Visite sites de fotógrafos locais, pesquise no Flickr, Google ou outro banco de imagens. O objetivo não é copiar, mas buscar referências e novos olhares sobre os temas propostos. Vai a Paris? Todos irão fazer fotos da Torre Eiffel. Mas nem todos olham para a torre da mesma maneira. Vale a pena descobrir qual enquadramento mais se aproxima do seu olhar.

3. Observe as pessoas locais

Fuja dos turistas e observe para onde os residentes caminham. Onde almoçam (lembre-se que a gastronomia diz muito sobre uma cultura), onde bebem cerveja no final do expediente. Eles não estarão nos circuitos frequentados pelos turistas. Se possível, converse com eles. Garçons, taxistas e vendedores ambulantes são ótimos pontos de partida para saber mais sobre a cidade e a cultura. E eles adoram conversar! Certamente não lhe darão as melhores dicas, mas você ganhará mais confiança sobre o uso do idioma ou sotaque e gírias do local.

Depois tente contato com aquele casal simpático que está sentado numa mesa ao lado da sua. Deixar o equipamento fotográfico à mostra facilita bastante o contato. Não se sinta envergonhado em ser identificado como turista. E nem tente se disfarçar. Estará escrito em sua testa: “Turista”. Mas procure também não exagerar e vestir-se como as pessoas locais te ajudam a fazer parte do mundo delas.  O melhor é conversar com pessoas que não estão relacionadas com atividades turísticas.

4. As pessoas não são modelos ou objetos à sua disposição!

Após iniciar os contatos com as pessoas locais, certamente você irá querer capturar imagens delas. As pessoas são desconfiadas com quem não conhecem. Apontar uma câmera para elas nem sempre será visto com simpatia. Sorria para elas e cumprimente. Se possível diga algumas palavras como “bom dia”, “por favor”, “obrigado”. Ajuda a quebrar o gelo e elas se sentirão menos “invadidas”. Mostre para elas pelo visor do LED da câmera as fotos que você tomou. Elas irão ganhar confiança e você poderá fazer muito mais registros.

Normalmente os pais não gostam de ver um estranho tirando fotografias de seus filhos. Aproxime-se deles primeiro. Apresente seu cartão de visitas (se tiver um), converse com eles e peça permissão para fazer as fotos. Ao final, seja gentil e envie uma cópia da foto para eles por e-mail. Se prometer isso, cumpra!

Lembre-se: estas pessoas não são modelos ou objetos que estão ali à sua disposição. Se elas dedicam alguns segundos ou minutos do seu tempo para você, ser gentil e verdadeiro com elas é o mínimo que você pode fazer.

Se é um trabalho profissional, é importante que converse mais com elas. Explique porque para você é tão importante ter uma foto delas. Elas se sentirão gratas em te ajudar a cumprir o seu objetivo e fazer parte do seu projeto.

Evite o uso de teleobjetivas para fotografar desconhecidos. Ou aquele zoom  da sua câmera ultra-moderna que te aproxima 400x do objeto. Falarei mais sobre isso num próximo post.

5. Faça back-up de tudo!

Se puder, leve duas câmeras com você. O dobro de cartões de memória, lentes, HD externo, etc. Leve tudo o que puder. Mas não exagere. Para fazer boas fotos você terá que caminhar muito e por lugares menos conhecidos pelos turistas. Então é melhor deixar o seu back-up no hotel. Na volta, não importa o quanto esteja cansado, transfira as imagens da câmera para o computador ou coloque tudo num álbum virtual. Você não irá querer voltar da Toscana sem fotografias para mostrar aos amigos.

Vejam

Dicas para Fotógrafos de Viagens (Parte 2)

Dicas para Fotógrafos de Viagens (Parte 3)

Dicas para Fotógrafos de Viagens (Parte 4)

Márcio Pimenta | Documentary & Travel Photographer