Não morreremos educadamente


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Quem me dera ao menos uma vez
Entender como um só Deus ao mesmo tempo é três
E esse mesmo Deus foi morto por vocês
Sua maldade, então, deixaram Deus tão triste
Índios (Legião Urbana)

Nos últimos dias estive em uma expedição pelo Mato Grosso do Sul fotografando o modo de vida dos índios Guarani Kaiowá nas aldeias Teykue, Pindoroky e Jaguapiru. Foi uma viagem absolutamente transformadora e um reencontro com o meu estilo de trabalho. Da forma como gosto de sentir o que está em volta de mim e… click! Deixo para vocês um trecho do meu diário de viagem.

“O de sempre: pesadelos durante a noite, o último a acordar na aldeia (e já sentindo um certo orgulho disso) e café da manhã com café preto, téréré e uma fatia de bolo de milho.

Fico em silêncio enquanto reviso as fotografias já tomadas. Estou no quinto dia de viagem e não tenho nenhuma foto, absolutamente nenhuma, da qual me orgulhe. A expedição está quase no fim e eu não tenho a maldita foto. E o cenário não era nada animador. Na agenda do dia visita a algumas lideranças da aldeia, seguido de um encontro com o Pajé e, por fim, conhecer a retomada Tekoha Pindoroky. Aqui, um parêntese necessário, “retomada” significa ocupar as terras que um dia pertenceram aos seus ancestrais.

Eu sabia que somente a visita a Tekoha Pindoroky poderia render alguma fotografia interessante, do contrário eu teria que: 1) cancelar o almoço em Curitiba onde faria a apresentação das fotografias para um grupo de empreendedores; 2) reconsideraria o pedido de uma índia que desejava que eu ficasse mais tempo na aldeia e; 3) apagaria da minha memória os planos de passar o próximo fim de semana mergulhado em uma banheira bebendo algumas garrafas de vinho branco chileno.

Julguei que o encontro com o Pajé seria uma ocasião importante, e estava decidido a me apresentar com elegância. Retirei da mochila a minha ultima camisa limpa, uma Hering branca. Perguntei a Jari (avó da aldeia) se estava bonito e elegante. Ela balançou a cabeça acenando que sim. Tenho sérias dúvidas quanto a resposta dela, pois para tudo que eu lhe perguntava ela me respondia sempre com a mesma graciosidade. De qualquer maneira decidi acreditar nela e subi na motocicleta.

Percorri 15 km por uma estrada de terra vermelha e quente como o planeta Marte. Ao chegar ao local notei que misteriosamente a minha camisa branca e limpa agora tinha um forte tom de vermelho e suada como se estivesse acabado de jogar os 90 minutos de uma partida de futebol.

Talvez, por isso, o Pajé não tenha se impressionado muito com a minha roupa, e para falar a verdade, nem eu com a dele. Em termos fotográficos o encontro foi um desastre. Mas eu ainda tinha a visita a retomada Tekoha Pindoroky. Minha ultima chance. Era agora ou teria que cancelar o almoço, reconsiderar o pedido da índia e dar adeus a minha banheira e vinhos brancos.

Em 19 de fevereiro de 2013 um garoto saiu junto com o seu irmão para pescar em um rio que ficava localizado dentro das terras de um fazendeiro. Eles estavam fazendo o que qualquer garoto de 15 anos faria: não se importavam com cercas ou qualquer outro limite imposto pelos adultos. Ao contrário, quando temos 15 anos, infrigir regras só torna a brincadeira ainda mais interessante.

Mas ele era índio. Podia ser branco, negro, escolham a etnia que quiserem. Mas ele era índio.

O primeiro tiro lhe acertou a orelha. Deitado com a metade do corpo na água e a outra metade nas margens do rio, gritava de dor e desespero. Era noite. Seu irmão que o acompanhava, conseguiu fugir pela mata. A ultima luz que ele viu foi a de uma lanterna que apontava diretamente para ele. E foi desta luz que veio o segundo tiro que lhe acertou a garganta.

Estava morto.

Três dias depois os índios se organizaram e retomaram a fazenda. O fazendeiro que havia matado o garoto teve tempo para fugir com quase todos os móveis da casa.

Uma cruz foi firmada pouco acima das margens do rio.

Edenílson foi privado da sua adolescência, do sorriso, das brincadeiras, da família, da vida. A covardia e a estupidez falaram mais alto naquela noite.

Visito a sede da fazenda agora ocupada pelos índios. Está vazia. Nenhum móvel. Apenas uma bicicleta abandonada, dois cães vira-latas circulam entre os cômodos, duas cozinhas com fogões a lenha e uma cisterna de onde retiram água através de uma bomba elétrica. As paredes estão completamente sujas de terra com marcas de mãos e pés.

Vou fazendo as fotografias de todo aquele vazio. A bicicleta, os cães, uma das cozinhas. Decido entrar no que parecia ser a antiga sala de visitas. Há brinquedos espalhados pelo chão. Um vulto. E “click”. Não sou eu quem faço a foto, mas ela é quem me toma. A foto perfeita. A foto que é a mais perfeita metáfora. A foto que mostra que Denílson e muitas outras crianças foram privadas por uma barreira estúpida de viver a infância. Para ver a foto, clique aqui.

Nunca dou títulos para as minhas fotografias. Mas esta eu a chamo intimamente de “O fantasma”.

Um fantasma que lentamente irá assombrar governos, empresas nacionais e estrangeiras, latifundiários, órgãos da imprensa, e uma sociedade entorpecida pela conveniencia de se afirmar como pacífica e educada.

Não morreremos educadamente.

Atyma!

Para ver a galeria completa de imagens da expedição, clique aqui.

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Olhar Estrangeiro


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Olhar Estrangeiro

O meu olhar para você é o mesmo que tenho sobre os lugares que visito. Um olhar estrangeiro. Curioso e namorado. Mesmo quando o lugar não é meu. Sou um trotamundos. Sabendo que para compreender suas nuances preciso descompreender a mim mesmo, pois tudo em você é muito particular. Minhas experiências não servem para nada.

Deixo propositadamente você me levar como um turista estrangeiro que não sabe em qual ponto de ônibus descer e nem como perguntar. Vou conhecendo as paisagens através das janelas dos seus olhos.

Beijo suas saboneteiras descobrindo vales que turistas não podem ver. Nunca me acostumo.

Encosto a cabeça no seu peito para ouvir o ritmo das batidas do seu coração e me descubro dançando num gueto.

Entro em você. Úmida. Completamente encharcada de desejos. Seus sussurros são vozes desconexas da vizinhança numa língua que não entendo. O cheiro da sua pele me recorda a terra molhada pela chuva na casa de campo onde vivi. Você não me deixa sozinho.

Gosto quando te calas. É o seu silêncio gritando para mim: não vá, há tanto a descobrir sobre mim. Suas pernas me entrelaçam.

Prepara um café para mim que cheira como um lar. Quando vejo, quero passar o resto da minha vida nessa conversa.

Fotografo seus sorrisos como quem coleciona cartões postais. Envio para a família e os amigos afirmando que não quero mais voltar. Não voltarei.

Eles respondem meus postais perguntando quem você é. Não tenho todas as respostas. E nem desejo isso. Seria clichê perguntar informações em quiosques. Prefiro te descobrir sozinho. Advinhar seus desejos desfazendo os estereótipos que possuem sobre você.

Tenho um olhar sobre você que não se acostuma. Um olhar de namorado que se dedica a  descobrir a mulher de hoje e do amanhã.

Um destino implacável


Escrevendo ou fotografando, só interessa se for como arte.
O artista é escolhido e arrastado por demônios. Ele não poderá declinar da escolha.
Tentará ser como os comuns e sofrerá punições por isso. Irá roubar a mulher do amigo, será expulso, irá correr para as montanhas e beber na solidão.
Ser artista é um destino do qual não poderá fugir. E não há garantias que ao final tudo dará certo.
Terá que ser implacável para ser bom. Ele é amoral. Sua única responsabilidade é com sua arte.
Não poderá desfrutar do sucesso, caso venha a acontecer. O sucesso é como uma mulher, que lhe tomará a alma se ele baixar a cabeça.

Pelo que vale


Pelo que vale, nunca é longe demais. Não há um momento definido. Basta levantar-se e encurtar as distancias físicas e virtuais. Qualquer momento é o ideal para tomar uma atitude.
Pelo que vale, o melhor é ser aquilo que se quer ser e saberá que é muito importante estar presente.
Não há regras, tudo o que se precisa é de um espirito livre.
Pelo que vale, você pode escolher ter o melhor ou o pior da vida. Lute pelo melhor.
Pelo que vale, você irá ver coisas surpreendentes. Irá conhecer pessoas fascinantes.
Os lugares são apenas paisagens que ajudam a formar estas pessoas. Então, para conhecê-las você irá precisar viajar além dos livros. Tocar estas pessoas. Ouvir suas historias. Compreender seus diferentes pontos de vista. Até mesmo os livros possuem alcance limitado. Então será preciso caminhar.
Pelo que vale, você irá perceber que as pessoas são o que são. Você irá conhecer pessoas que se dedicam a serem as melhores naquilo que se propuseram a fazer. Irá conhecer a melhor mãe, o melhor amigo, a mais bela bailarina, o melhor artesão, o escritor fascinante, a melhor namorada, o melhor professor, a melhor cozinheira, o melhor arquiteto, a mulher da sua vida.
Pelo que vale, você irá sentir coisas que nunca sentiu antes.
Pelo que vale, espero que um dia você sinta que é capaz. Que viva uma vida da qual se orgulhe.

What a Wonderful World


Já caminhei milhares de quilômetros. Pedalei por montanhas e praias. Já naveguei por baías, rios e oceanos. Dirigi velozmente levantando poeira nas estradas de terra.

Já perdi a conta das vezes em que voei sobre o atlântico apenas para ver a beleza das ruínas.

Tudo em nome da beleza. Em nome do desejo.

Nada foi inconsequente. Não finjo amizade para seduzir.

O desejo não apela para golpes baixos. O amor repudia quem seduz por diversão.

Não pode haver pressa. Não posso apressar a mulher, pois poderia esquecê-la.

Não se apressa o amor antes que a semente da paixão se deixe germinar.

O que não é egoísmo e nunca poderá ser carência.

O desejo não é um fim em si mesmo. Isso seria capricho.

Ao torcer um pé, cair montanha abaixo, quase me afogar, machucar-me numa batida de carro, apertar os cintos em uma turbulência, fui deixando para trás o que não fazia parte de mim.

Fui ficando leve como uma cicatriz.

Percebi que meus defeitos revelam minhas virtudes.

Leio sua carta, só para lembrar do calor do seu sorriso, da sua timidez em se revelar bailarina.

A mais pura beleza. A lenta flecha da beleza me atingindo o coração. A beleza mais nobre, que não arrebata, se infiltra.

Do seu olhar que ficou. Da sua voz que não se calou. Dos teus cabelos sendo tocados pela brisa que soprava do oceano enquanto estava sentada olhando a cidade distante.

Da maravilhosa companhia que é.

Da imensa sensibilidade que descreve com imensa ternura o que parece tão trivial a olhos e ouvidos pouco atentos.

Ver o mundo com você, é muito melhor.

Sim, definitivamente, estar com você “What a Wonderful World”.

Marinheiros, escritores e um barril de rum


É a saudade ou as tempestades quem trazem os marinheiros e escritores de volta para casa?

Partimos ontem com céu azul, sem nuvens, com mar de almirante. A tarde nos reservava uma tempestade com borrifos de água gelada. Os ventos ganhavam força e a água da chuva parecia vir de todos os lados. A água do mar banhava a proa. Surfistas involuntários das ondas.

Este era o mar possível. Mesmo com capas de chuva, o frio vencia o calor e parecia atingir nossos ossos. “Uma dose de rum”. Nas poucas milhas que já naveguei até aqui, nas poucas linhas que já escrevi, nunca vi um só marinheiro ou escritor que não tenha visto o sorriso da mulher amada no fundo de uma garrafa de rum. O mesmo que agora nos aquecia do frio, da saudade.

Chegamos ao porto quando já era madrugada. Olhos sujos, sem brilho, do marinheiro, mãos trêmulas, de frio, do escritor. Ambos lançando garrafas ao mar com uma única mensagem, “Um beijo para você”.

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Como podemos chorar copiosamente por alguém que não conhecemos? Sequer a vimos de perto algum dia?

No momento em que recebi a noticia de que Steve Jobs havia nos deixado eu estava mostrando a um amigo como configurar o seu novo MacBook Air. Coincidência? Pode ser.

Mas tudo o que eu via era como o mundo a minha volta havia mudado. Na minha mesa estavam um MacBook Pro, um MacBook (branco), um iPad e um iPhone. Ah! Estava também, o MacBook Air do meu amigo.

No meu MacBook Pro escrevo minha tese de doutorado, um livro de romance, faço amigos na internet, ouço música, assisto filmes e digo a pessoa que gosto o quanto ela não deveria estar tão longe, embora estes pequenos aparelhos feitos de alumínio, vidro, design e uma elegância ímpar em cada detalhe tentasse nos aproximar. Quando saio para correr a beira da praia, escuto músicas e faço um mapa do trajeto de corrida no meu iPod.

Jobs foi abandonado pelos pais. Carregou isso com ele por toda a vida. Externalizou sua dor na solidão, afastando as pessoas que tentavam chegar muito perto. Mas nunca foi egoísta. Ao contrário. Compartilhou conosco a vontade de se conectar. E o fez como ninguém. Contraditório, e por isso mesmo, interessante. Genial.

Não precisaria conhecer Steve Jobs para chorar a perda dele.

Ele está presente em minha vida desde que um professor de filosofia, quando ainda aluno do doutorado lá no Chile, me apresentou seu MacBook. Claro que um economista jamais poderia ter me apresentado um Mac. São estúpidos e previsíveis demais.

Os administradores, economistas, engenheiros, etc., certamente estão devorando livros, fazendo cursos de MBA, teses de doutorado, etc., tentando entender como Steve Jobs construiu um império, uma empresa verdadeiramente revolucionária (esqueçam o Google, ao lado da Apple de Steve Jobs, não passa de uma piada).

Estes profissionais irão gastar o dinheiro de seus pais e suas famílias tentando entender “o modelo de administração Steve Jobs”. Uma pena.

Steve Jobs acima de tudo era um apreciador das artes. Da leitura, pintura, música, cinema e, principalmente, design. As horas que dedicava a apreciar uma pintura, um objeto qualquer, logo se transformavam em desenhos para os seus produtos.

A música de Bob Dylan está nos produtos da Apple. A pintura de Picasso idem.

Está presente também a lealdade que tinha aos amigos. Aos poucos e bons. Aqueles que quando ele estava em seu inferno pessoal, quando o mundo acreditou que ele estaria derrotado. A cada um deles, lhes entregou seu maior valor: lealdade. Certa vez, uma destas amigas decidiu casar-se sob uma religião (que me falta o nome agora). Todos seus amigos a abandonaram, mas Steve Jobs estava lá ao lado dela.

Ele sabia que pensar o mundo baseado em leis escritas por professores frustrados não o levaria muito longe. Preferia ir até a Índia na tentativa de alcançar um novo estado de consciência, seja lá o que isso for.

Steve Jobs foi mais longe do que qualquer um por que por muitas vezes esteve derrotado, esteve ao lado da morte. E quando isso acontece, só há uma opção: seguirmos nossos corações.

Foi mais longe por que não absorveu a frustração dos outros. Imaginou o seu mundo e o construiu. Acabou construindo o de todos nós.

Sem Steve Jobs, um pirata, um hippie, um homem que teve a sorte de destruir todos os sentimentos do passado para construir sua própria família, o futuro, agora ficou mais longe.

Obrigado Steve Jobs. 

A medida certa de todas as coisas


Acendo um cigarro enquanto penso sobre o capítulo que devo escrever. Estou no b_arco, um centro de cultura em São Paulo.
Vejo seus muros pintados em declive e não em simetria com a casa, como penso que deveria ser.
Vejo mais de duzentos livros em minha frente. Escolhi apenas um para folhear.
Caminhando até aqui, vi muitas Mercedes Benz, SUVs e outros veículos exclusivos. Mas prendi meus olhares nos Fuscas e Harley-Davidsons.
Escuto duas belas mulheres falando sobre o fim de seus casamentos. Uma delas esteve por doze anos casada com um judeu. Foi a Jerusalém após o divorcio.
Noto que a pintura do muro sincroniza com a rua. Faz muito mais sentido. Revela a geografia do lugar.
Poderiam existir duzentos mil livros, ainda assim escolheria aquele para folhear. Ter duzentos apenas facilitou a minha busca.
Não importava a exclusividade. Eu buscava beleza e personalidade nos veículos.
O divorcio levou aquela mulher a conhecer o marido mais do que quando estava com ele.
De alguma forma, há uma medida certa para todas as coisas.