Imagen

Brazil World Cup [2]


_MG_8847

Anuncios

Oh, Captain, my Captain


“OK, Marcio. Use como quiser e o chopp está aceito. Só que em São Paulo, pois aqui estou de volta para encher o “saco” dos que estão do outro lado.

Prazer e Abraço”

Respondi a mensagem agradecendo e combinamos uma data para o tal chopp, que infelizmente, acabou não dando certo. E foi tudo. Foi assim nosso ultimo contato. Era abril de dois mil e onze.

Nunca fui amigo do Sócrates. No máximo fomos “amigos” no Facebook, o que não quer dizer absolutamente nada. Nem mesmo nos encontramos pessoalmente algum dia. Ele apenas foi gentil ao atender a um pedido meu: publicar o seu texto “O Peso da Camisa do Corinthians”, num projeto que tenho em andamento.

Fui, como todos os brasileiros um fã. Um fã de poucos ídolos, porque personalidade já não se encontra em qualquer esquina. “Não querem que eu beba, fume ou pense? Pois eu bebo, fumo e penso. Não fico escondendo as coisas.”, disse ele certa vez.

Não foi por causa do futebol do Sócrates que vim a torcer pelo Corinthians. Mas por causa dele, eu não poderia vir a torcer por nenhum outro time. Sócrates me deixou sem opção. Levantou a bandeira da democracia quando todos se escondiam. O coração do Sócrates, da Democracia Corinthiana que ele ajudou a criar, estão impregnadas no manto sagrado. Como sangue que nenhum produto pode remover. Nenhum moralista de plantão pode tingir.

Em uma tarde, num domingo qualquer em Santiago do Chile, convidei o Idelber Avelar, que estava de passagem pela cidade, para comer um churrasco e beber uma cerveja comigo. Abri a porta para ele vestindo a camisa do Corinthians. Era uma pequena e gentil provocação. Mas uma homenagem também. Eu sabia que o Idelber era torcedor do Atlético-MG e não via o Timão com bons olhos, mas é apaixonado por futebol.

Era época de eleições presidenciais e nos dias seguintes consagraríamos Dilma como presidente do Brasil. Em certo momento falamos do Doutor Sócrates, amigo pessoal do Idelber. Eu sabia que alguns dias antes o Idelber e o Sócrates estiveram juntos em um encontro literário em Londres. Então pedi a ele para que nos contasse algumas histórias.

O Idelber havia sido escalado para ser o intérprete do Magrão durante o debate. Teve que se virar, pois o Doutor driblava também com as palavras. Mais tarde foram a um pub beber umas cervejas. Um jovem inglês o reconheceu. Como Sócrates não falava inglês, o Idelber teve que fazer hora extra. Uma pequena multidão juntou-se a eles e continuaram bebendo pela fria madrugada londrina. Um dos jovens perguntou a Idelber, “Você viaja o mundo todo com o Sócrates?”.

“Não, não viajo o mundo todo com ele. Dou aulas em uma universidade em New Orleans”, respondeu Idelber.

O interlocutor fez silêncio por alguns segundos e não disse mais nada. Mas não conseguiu disfarçar a decepção. Como seguir uma vida acadêmica quando podia estar correndo o mundo com o elegante nos pés, nas palavras e nos ideais de Sócrates? Para aquele jovem isto era imperdoável.

Rimos muito ao lembrar disso. O Idelber, como uma espécie de mensageiro, trazia para mim esta e outras pequenas histórias daquele que era um craque da bola e da democracia. A tarde de bate papo com o Idelber foi de pura alegria e o agradeço muito por isso.

Sócrates, Magrão, Doutor, Brasileiro, o que viveu na alegria, sem medo. Apontava na entrada da área, desconcertava os adversários da mesma forma como driblava o maior medo do Homem: o medo de ser feliz. Tocava de calcanhar a tristeza para longe e com o punho erguido comemorava a felicidade.

Vi homens e mulheres se negarem a felicidade. O medo de serem sugados, de se destruírem, de perder o que não possuem, de largarem o tédio, medo da inspiração, de se perderem em si mesmas, de enlouquecerem, da incerteza da manhã seguinte. Preferem negar as palavras, a conversa, sumir como se fossem levadas pelo vento. Pelo medo. Medo de não ter razão. A felicidade não tem razão.

Dr. Sócrates, aquele para qual a arte é intrínseca ao futebol, provou que também é para a vida.

Perdi o meu capitão.