iSad


Como podemos chorar copiosamente por alguém que não conhecemos? Sequer a vimos de perto algum dia?

No momento em que recebi a noticia de que Steve Jobs havia nos deixado eu estava mostrando a um amigo como configurar o seu novo MacBook Air. Coincidência? Pode ser.

Mas tudo o que eu via era como o mundo a minha volta havia mudado. Na minha mesa estavam um MacBook Pro, um MacBook (branco), um iPad e um iPhone. Ah! Estava também, o MacBook Air do meu amigo.

No meu MacBook Pro escrevo minha tese de doutorado, um livro de romance, faço amigos na internet, ouço música, assisto filmes e digo a pessoa que gosto o quanto ela não deveria estar tão longe, embora estes pequenos aparelhos feitos de alumínio, vidro, design e uma elegância ímpar em cada detalhe tentasse nos aproximar. Quando saio para correr a beira da praia, escuto músicas e faço um mapa do trajeto de corrida no meu iPod.

Jobs foi abandonado pelos pais. Carregou isso com ele por toda a vida. Externalizou sua dor na solidão, afastando as pessoas que tentavam chegar muito perto. Mas nunca foi egoísta. Ao contrário. Compartilhou conosco a vontade de se conectar. E o fez como ninguém. Contraditório, e por isso mesmo, interessante. Genial.

Não precisaria conhecer Steve Jobs para chorar a perda dele.

Ele está presente em minha vida desde que um professor de filosofia, quando ainda aluno do doutorado lá no Chile, me apresentou seu MacBook. Claro que um economista jamais poderia ter me apresentado um Mac. São estúpidos e previsíveis demais.

Os administradores, economistas, engenheiros, etc., certamente estão devorando livros, fazendo cursos de MBA, teses de doutorado, etc., tentando entender como Steve Jobs construiu um império, uma empresa verdadeiramente revolucionária (esqueçam o Google, ao lado da Apple de Steve Jobs, não passa de uma piada).

Estes profissionais irão gastar o dinheiro de seus pais e suas famílias tentando entender “o modelo de administração Steve Jobs”. Uma pena.

Steve Jobs acima de tudo era um apreciador das artes. Da leitura, pintura, música, cinema e, principalmente, design. As horas que dedicava a apreciar uma pintura, um objeto qualquer, logo se transformavam em desenhos para os seus produtos.

A música de Bob Dylan está nos produtos da Apple. A pintura de Picasso idem.

Está presente também a lealdade que tinha aos amigos. Aos poucos e bons. Aqueles que quando ele estava em seu inferno pessoal, quando o mundo acreditou que ele estaria derrotado. A cada um deles, lhes entregou seu maior valor: lealdade. Certa vez, uma destas amigas decidiu casar-se sob uma religião (que me falta o nome agora). Todos seus amigos a abandonaram, mas Steve Jobs estava lá ao lado dela.

Ele sabia que pensar o mundo baseado em leis escritas por professores frustrados não o levaria muito longe. Preferia ir até a Índia na tentativa de alcançar um novo estado de consciência, seja lá o que isso for.

Steve Jobs foi mais longe do que qualquer um por que por muitas vezes esteve derrotado, esteve ao lado da morte. E quando isso acontece, só há uma opção: seguirmos nossos corações.

Foi mais longe por que não absorveu a frustração dos outros. Imaginou o seu mundo e o construiu. Acabou construindo o de todos nós.

Sem Steve Jobs, um pirata, um hippie, um homem que teve a sorte de destruir todos os sentimentos do passado para construir sua própria família, o futuro, agora ficou mais longe.

Obrigado Steve Jobs. 

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4 comentarios el “iSad

  1. Todo mundo quer achar a fórmula Jobs para copiar. Isso nunca vai funcionar porque o segredo daquele grande homem era justamente não copiar. Não olhava para os lados. Ele criava o novo caminho. Concordo com você Marcito. Temos apenas que dizer: Obrigado Steve.

  2. Sem palavras pq você sempre rouba todas. Consegue expressar o que todos nós pensamos e sentimos. Parabéns!! Belíssimo texto!

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