o mar possível


– E por que o mar?

– Escolhi ser pescador por que homens do mar não se importam em saber a que família você pertence, qual o seu status na sociedade. Querem apenas saber se você atravessou bem uma tempestade ou uma terrível calmaria. O que você tem a dizer. Marinheiros que voltam a terra firme e encontram os seus. Muitas histórias para contar, muitas experiências para compartilhar. Além disso, não se deixam enganar pela aparente calmaria marítima. Sabem que a tempestade não escolhe dia e nem hora. Pode ser de dia para que a luz ilumine o seu desespero, pode ser a noite para que se sinta completamente sozinho. E decidi ser pescador por que eles querem o quê há no fundo e por isso jogam suas redes, e as puxam novamente. Querem voltar com o barco cheio. Mas mesmo quando o barco volta vazio, eles sabem que o mar talvez seja mais profundo do que as suas possibilidades. Então esperam por um outro mar possível, enquanto costuramos nossas velhas redes e contamos  nossas histórias a quem se dispõe a ouvi-las. Não importa se vamos apenas contar histórias ou comer um grande peixe, de todas as formas estamos desfrutando do produto de um trabalho. Um trabalho que exige que se vá mais longe e mais ao fundo, e cada vez mais. Pescadores e escritores, na essência, fazem o mesmo. E eu já não podia continuar escrevendo.

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2 comentarios el “o mar possível

  1. Após 4 semanas nas montanhas, havia chegado o momento de ir a um lugar que nunca tinha estado antes. Esta é a história desta expedição.

    EXTREMO SUL. UMA EXPEDIÇÃO IMPROVISADA.

    Depois de duas noites em Arrial d´Ajuda, segui pelas falésias para praias mais desertas.

    Enquanto seguia rumo a Troncoso pela areia fofa, pensava no centro histórico de Porto Seguro. Suas Igrejas imponentes nos morros em frente à praia e ao mar que descortinava. Os homens que lá viveram…os primeiros desbravadores…os povos que lá estavam e seus papéis nos primórdios da nação brasileira. Imaginava Cabral chegando com suas naus enquanto olhavam ansiosos da praia , em meio à floresta que abrigava o espantoso litoral da Terra de Vera Cruz…

    “Neste mesmo dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! A saber, primeiramente de um grande monte, muito alto e redondo; e de outras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos; ao qual monte alto o capitão pôs o nome de O Monte Pascoal e à terra A Terra de Vera Cruz!” Camões”

    Quando estava no centro histórico tomei “carona” em um grupo de turistas que seguia uma guia que explicava tudo. Ao querer pagar após quase uma hora de exposilção, ela não quis aceitar…é mesmo a Bahia.

    Seguia pelas falésias, que cresciam a medida que deixava os hotéis e os bares de Arrial para atrás. Às vezes apareciam um e outro acolá, mas as falésias formavam uma barreira resistente à voracidade do mundo moderno. Logo as praias se tornaram um pouco desertas e andava quilômetros até a próxima barraca de praia. Praias e mais praias, até chegar num lugar onde surgiu, do nada, um hotel, com campos verdes e chalés saídos dos rios do mangue. O lugar era esplêndido, mas questionei quais danos ambientais deve ter custado. Pelo menos o rio parecia limpo e os turistas andavam de caiaque e nadavam nele.

    Este local é fora do comum. Um dos mais bonitos que vi na região, apesar do hotel à poucos metros de distância. Descobri, com o tempo, que os lugares mais bonitos e fascinantes estão tomados por hotéis e pousadas de luxo, infelizmente. Uma exceção, apraia do Satu.

    O rio entrava no mar escavando ondulante na areia, formando corredores de até mais de dois metros de altura. Olhei aquele trampolim natural…não resisti. Saltei. O problema era que, naquele local, o rio tinha a profundidade de menos de meio metro. Quase quebro a perna…Teimosia pura, pois sabia que o rio não era uniforme pois já o tinha atravessado. Fiquei um bom tempo na água salobra do rio.

    Continuei. o Sol inclemente. Finalmente avistei Troncoso, um pequeno formigueiro na praia de ondas. Os barzinhos na praia com som ao vivo (cada um com sua banda) e a quantidade de gente me lembrou Salvador. Escolhi um lugar longe da praia e protegido do Sol. Pedi uma carne com fritas para me precaver da minha nova alergia a crustáceos e, ouvindo Alceu Valença e Beto Barbosa, fiz a minha digestão…

    Algumas horas depois…segui pela praia de Trancoso procurando um lugar para dormir, mas, como queria ganhar terreno para o próximo dia, segui até as últimas pousadas. “Depois dali só tem mato”…disse uma menina. O problema é que eram pousadas caras. “Bem, nunca fiquei num balneário antes”. E lá estava eu, tomando banho de piscina ao lado da praia depois de caminhar quilômetros pela areia. Eu devia estar com um aspecto um tanto diferente, pois atraia a atenção de todos…Exausto, nem fui jantar. Hora de dormir e me preparar para o dia mais longo. De Trancoso até Caraívas.

    Acordei e comecei a andar para Caraívas depois de comer tudo o que podia no café da manhã. Saí com duas mochilas, uma nas costas, a outra no estômago. Andei, andei…e a medida que o tempo passava, as praias iam se tornando mais desertas. “Tá levando água?” perguntou um funcionário do hotel. “Pra lá não tem nada!” Levava confiante dois litros.

    Enquanto caminhava, os coqueirais davam lugar agora à floresta. Eu imaginava tribos perdidas 500 anos atrás. A floresta parecia que ia invadir a praia e empurrar aqueles que se aventuravam em seus domínios contra o oceano. De longe pareciaum tanto ameaçador, mais do que as falésias. Seguia completamente para o desconhecido, pois não sabia onde e quando iria encontrar alguém de novo. Segui sozinho durante muito tempo.

    PRAIAS SEM FIM

    Sim, era nisso do que eu pensava…praias sem fim. Um universo novo… Eu finalmente estava onde eu queria estar. Estava fazendo o que pretendia. Estava no mundo selvagem…

    Seguia rumo ao incerto…as praias nunca terminavam…as pernas doloridas…os tendões…A mochila estava mais pesada e os pés enterravam na areia. Nem rios tinham mais…era só areia abaixo dos pés. O mar de um lado e a floresta do outro. Vez por outra, a vegetação selvagem dava lugar a coqueirais nas pontas das praias, onde eu avistava a próxima a seguir…sombra, não havia. Em frente.

    Tentava não pensar no rio que teria que atravessar para chegar à Praia do Espelho. Teria que encontrar um jangadeiro porque, na maré alta, era quase intransponível. De mochila então…Antes, avistei uma grande praia…uma praia de 21 quilômetros segundo me disseram mais tarde!!!! Completamente deserta! Nessa hora a maré havia recuado e eu podia andar na areia dura sem tanto esforço mas, tão sólida, que machucava meus tendões. Descalço, minhas pernas doíam completamente…e tentava não pensar em mais nada, a não ser avançar! Tinha esta imensa praia, um mundo…E avançava sem nem olhar pra frente, pois não havia nada para ver, e o final eu não avistava…eram quilômetros e quilômetros de uma meia lua que avançava no oceano! Segui até o fim da praia. Logo após, já podia ver o rio. De longe o mais caudaloso até aqui. Este só nadando mesmo!!!! E estava cheio. Suas águas invadiam o oceano impetuosamente…Logo vi uma casa simples, mas perfeita, pois estava perfeitamente contruída embaixo dos coqueiros junto ao rio Parecia que havia crescido junto com o lugar! As palmeiras balançavam com o vento enquanto um jangadeiro saía da sua casa e colocava seu barco na água. Quando estava atravessando o rio, eu havia retornado alguns anos, quem dirá décadas no tempo…quando por aqui singravam apenas canoas e descendentes indígenas.

    Perguntei quanto era a travessia e ele disse “qualquer coisa que você puder me dar”…”10 reais tá bom?” “Tá otimo” Não tinha troco! Foi vinte reais mesmo…

    Pulei da jangada. “A praia do Espelho está bem próxima .” Minutos depois entrei numa baía repleta de coqueiros e campos verdes em um condomínio que era, no mínimo, impressionante. Mais um. Mas este se destacava. Suas bandeirolas tremulavam ao vento atlântico. Descansei sob a preciosa sombra de uma árvore no cercado, pois estava exausto. Já passavam das 2:30 da tarde…”Para onde vai?” “Para Caraívas, venho de Trancoso.”

    Mochila nas costas. Passo mais duas praias…as falésias do Espelho começam a aparecer…E também pousadas caras com árvores e jardins junto com quiosques para amparar do Sol os turistas em suas cadeiras e praia. Restaurantes também caros. De fato, a praia do Espelho tem ainda o trunfo de juntar as falésias com corais que, com a maré baixa e a lua cheia, parece um espelho na água. Mas não posso esperar a lua e nem pagaria não sei quantos reais para dormir uma noite aqui. Tenho que seguir.

    Passando pelas falésias da praia do Espelho volto para o deserto…

    Sigo uma pequena praia, bastou algumas falésias para deixar a civilização…e desta vez dominam todo o cenário. Falésias da mais de vinte metros de altura! Diferentes cores…estas esculturas caóticas, lunares, impressionam. Sigo-as até dar e cara com o mar, que luta tenazmente com as rochas. Não há mais para onde ir. Volto cerca de meia hora e encontro a trilha que sobe a falésia! Botas nos pés! Preparar para subir! Estou no meu reino…

    A mata ás vezes se fecha, mas o caminho é fácil e sob o sol escaldante quase todo o tempo…Encontro uma família indígena de bicicleta. Sigo com eles…Ao descermos do outro lado da falésia posso ver o imenso paredão que se descortina por centenas de metros mar adentro! Protegendo, como uma ameaçadora península, a praia de possíveis corsários! Meus companheiros indígenas me deixam para trás. Pataxós, se nao estou errado. Estou na praia do Satu!

    Esta praia, completamente selvagem, possui duas lagoas de água doce que desenbocam no mar e um pequeno rio. Uma riqueza natural como não via igual desde os lugares mais longínquos que já estive. Em volta das lagoas, os manguezais são substituídos, aos poucos, pela floresta que, sustentada nas falésias e nos morros, são jardins suspensos nabuconodossorianos…Lá, em eras pré-históricas, vivam tribos, filhos do mar…

    Seguindo o sol.

    Outra praia. Moradores pescando com varas de pescar sustentadas na areia. Uma linha de pesca se prende na mochila, me deixa passar…”Falta pouco…” diz o paciente pescador com aquela paciência que apenas aqueles que vivem do mar conhecem…Tento usá-la também a meu favor. “Faltam uns dois mil metros…”

    Sigo pela praia de dois quilômetros andando vagarosamente. A maré, mais baixa, forma um corredor entre as ondas e a areia seca…sigo sob o sol do entardecer. O crepúsculo não importa mais. Me protege dos violentos raios solares, que, sem piedade, estrangulam a vontade e abatem o espírito! Quantos quilômetros foram até agora? Trinta? Quarenta? Que importa? Ainda posso mais…

    Uma elevação de areia, parede natural, oculta a próxima praia…Alguns passos lentos, enterrando os pés na areia…Levanto a visão…Pequenos toldos feitos de quatro estacas com tetos de pano balançam ao vento…Pessoas deitadas embaixo deles e, entre nós, um rio, o último rio. Lá, a cinquenta metros de mim, Caraívas…

    Comecei a rir…

    CARAÍVAS

    Caraívas é uma pequena vila de pescadores com pousadas caras e restaurantes ainda mais caros…mas o lugar é fora do comum e a correnteza do rio, quando cheio, leva os banhistas em direção à praia em grande velocidade, como um parque de diversões natural. Apesar do turismo intenso nos fins de semana, tenho que admitir, o lugar é fora do comum…Na segunda feira a praia à noite estava deserta, o rio vazio, e as lua e as estrelas eram únicos visitantes do lugar.

    CARAVELAS
    No dia seguinte, após três noites, parti para Caravelas. Caravelas é uma cidade antiga, pelo que me disseram. Descoberta em 1503. Suas igrejas, ainda conservadas, são os únicos testemunhos de um tempo já esquecido. Um senhor de cabelos brancos, ex-engenheiro militar com 25 anos de experiência na Amazônia, dono de um casarão repleto de obras de arte e objetos históricos, contou-me o pouco da história do lugar em seu desorganizado escritórico repleto de quadros e pinturas. Dominando tudo estava um quadro da nau portuguesa chegando numa praia com palmeiras.
    “Você sabe os nomes dos barcos de Colombo”?
    “Sei”.
    “Mas o nome da nau de Cabral você não sabe não é”?
    “Confesso que não”…
    “Era Esperança. Pouca gente sabe”.

    Engenheiro militar, está tentando criar um museo no casarão da família com as relíquias que ele e seus antepassados adquiriram com o passar do tempo. Uma infinidade. Balas de canhão, flechas autênticas de Roraima com manchas de sangue nas ponta, sua imensa coleção de moedas (uma datada de 1732, a primeira cunhada no Brasil na Casa da Moeda de Salvador) organizada de acordo com os governantes vigentes na época, imagens sacras (algumas de quase meio metro de altura, cópias de Aleijadinho), réplicas de quadros como o de Mona Lisa…a lista parece não ter fim.

    “Tem gente que vem aqui e acha que essa estátua (um samurai sentado com as pernas cruzadas) é o Buda…Buda com capacete e espada?”

    “Pretendo fazer um museo mas aqui não há incentivo à cultura. Se você reforma aquela Igreja vem um já pixá-la. É difícil. O povo não tem educação, sem educação não tem como fazer nada disso…tem gente aqui, estudantes, que você pergunta quem foi Rui Barbosa, Castro Alves, e não sabem.”

    Assinei seu livro de registros e fui embora, desejando-lhe boa sorte.

    Amanhã irei para outro museo. Este mais antigo. Um museo de milhares de anos que se renova e resiste às intempéries da modernidade. Um museo vivo onde reinam apenas os seres marinhos e o ser humano é apenas um inquilino que, diante do mundo selvagem, busca a ilusão da temeridade e ajoelha-se perante a grandiosidade. Abrolhos.

    O ARQUIPÉLAGO.
    Não há muito a dizer…apenas quem for lá, quem mergulhar nas cavernas submersas, nos labirintos estreitos, saberá o que estou dizendo. Moréias com cabeças de vinte centímetros, peixes de 30 quilos, badejos, lagostas que parecem monstros escondidos, polvos que nadam à noite, tartarugas marinhas, inúmeros corais…Fizemos mais de dez mergulhos em quatro dias, e cada um tinha uma surpresa. Nas estreitas passagens e nas locas que entramos, verdadeiras cavernas embaixo d´água, abrigavam a vida submersa. Os atobás ficavam parados, nos encarando com desdén e curiosiade, quando invadimos sua ilha. As fragatas apareciam em busca de comida.

    Quando estávamos de noite, todos com cilindros e lanternas embaixo d´água, éramos como astronautas na face oculta de um corpo celeste. Os peixes nos cercavam e quase nos tocavam…Ao submergimos, acima de nós, milhares de pontos e feixes luminosos nos brindavam com sua onipotente prensença. Era a Via Láctea!

    Até a próxima aventura.

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