my girl


Gostava dela naquele jeans claro, justo, que desenhava perfeitamente suas curvas com tanta classe que nunca poderia ser vulgar. Estudaram no mesmo colégio e naquela época as estações do ano eram mais bem definidas. Na primavera podia-se colher flores para ela e ter uma luz perfeita sobre a blusa branca que realçava a beleza de seus seios quando ainda usava, não o primeiro, mas talvez o terceiro ou quarto sutiã. Ela prendia o cabelo delicadamente com uma presilha, dando-lhe um ar romântico, inocente e ao mesmo tempo extremamente sexy. Ele gostava de tudo o que ela fazia. Procurava motivos para ficar próximo e poder sentir o seu perfume. Se gostavam muito. Olhavam um para o outro com paixão. Mas como nada é fácil nesta vida, teve que disputar o seu amor com concorrentes diretos: os vizinhos da rua e do colégio. Cortejada, como toda garota inteligente soube se valorizar. Mas ele sabia que aquele olhar era apenas para ele. E ela gostava de mostrar isso a ele.

Ciumenta. Mesmo antes de namorarem, quando ela fazia-se presente e ele por qualquer motivo tinha que se afastar, ela sentia fortemente isso em seu coração. E esta seria uma lição que ele demoraria a aprender: ele a tocava em seu íntimo, não tinha o direito de se afastar por qualquer motivo.

Na concorrência para conquistar a garota, ele tinha uma forte desvantagem frente aos demais: havia repetido dois anos no colégio. E neste quesito, não que ela se importasse com isso, pelo contrário, dava até aulas para ele, o que obviamente seria mais um motivo para ficarem mais tempos juntos. A barreira vinha de cima: o futuro sogro. Médico e fazendeiro acostumado a lidar com todo o tipo de animal, inclusive os humanos.

O pai morava fora da cidade, mas quando estava presente, o pretendente podia ficar até semanas sem sentir o perfume dela. No máximo uma rápida conversa nos corredores do colégio. Então, buscando maneiras de se ocupar enquanto esperava uma oportunidade para vê-la, ele começou a devorar livros e revistas que não eram utilizados nas escolas. Revistas semanais, livros de política, romances. Valia qualquer coisa, desde que não utilizassem nas escolas. Ler qualquer coisa recomendada pelos professores, para ele não tinha valor.

Então, num fim de tarde foi comprar pão e quase ficou paralisado ao olhar do outro lado da rua, sentado num bar, a figura daquele que ele mais temia, mas de quem mais ele precisava se aproximar. Era pai dela, que dando pouca confiança para aquele moleque que teve a ousadia de tomar o coração de sua filha, o chamou e pediu que lhe servissem um refrigerante e o convidou a sentar-se junto a ele, o dono do estabelecimento e mais três homens. De inicio falaram sobre o nada, assuntos do cotidiano, etc. A medida em que pediam mais cervejas, mais refrigerantes ele tomava, e sentiu-se encorajado a emitir pequenas notas sobre a política, assunto em qualquer mesa de bar. As horas dedicadas aos livros e revistas finalmente fariam algum sentido. O pai dela não podia acreditar no que via. Aquele moleque estava ali dando pitacos sobre política e sociedade, falava com desenvoltura e segurança. Gostou do que viu. Esperou que outros fossem embora e quando restava apenas ele, o dono do bar e o moleque, dirigiu-se ao dono do bar e afirmou: “está vendo este moleque aqui? Quer namorar a minha filha”. O dono do bar apenas sorriu. Então virou-se para o moleque e disse: “se você quiser namorar com ela, terá que vestir suas ´calças´, ir lá em casa e pedir a mão dela para mim e a mãe dela”.

Dito e feito. A noite se apresentou e fez o pedido formalmente. Nunca mais precisou fazer isso por garota nenhuma. Ninguém mais faz. Uma pena.

Música do post

My Girl – The Temptations (vídeo)

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3 comentarios el “my girl

  1. “Uma pena”… Pena mesmo que tanta coisa gostosa tenha se perdido com o tempo, com a vida, com as pessoas. Você conseguiu deixar saudades nos nossos corações… Muito bom!

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