origins (parte 1)


Respirava de forma ofegante. A corrida no meio daquele deserto não apenas exigia demais dos seus pulmões – sabe Deus o que ainda restavam deles – mas de alguma forma ele sentia que respirava mais leve. Por anos se dedicava àquele projeto pessoal. Afastou-se de tudo. Tinha medo de que mais uma vez dissessem a ele que não o fizesse. Tinha medo que fizessem como há três décadas quando lhe deixaram sem nenhuma explicação. Havia escolhido amar à distância. Os dois anos e seis meses no deserto haviam lhe ensinado coisas que somente iria perceber muito depois.

Ao chegar em casa banhou-se, comeu algo rapidamente, escreveu dois ou três correios eletrônicos e abriu um vinho. Dirigiu-se a varanda, acendeu um cigarro e começou a recordar suas origens. Lembrou de histórias que lhe contaram. Histórias que não podia se lembrar mas que seriam marcantes para ele. Três décadas atrás, quando a cidade-locomotiva do país necessitava de mais energia do que nunca. Uma onda de imigrantes de várias partes do país seguiu para construir no sudeste uma hidrelétrica que levaria à cidade a força necessária. Foi neste cenário que seus pais se conheceram. E se separaram. Não se sabe até hoje como tudo ocorreu, mas o fato é que aquele homem de braços fortes, destemido e com uma inteligência acima da média não deixou com ela nenhum dos filhos e seguiu com eles de volta a sua cidade natal. Rumores indicam que ela foi quem escolheu abandoná-los a própria sorte. Voltaria tempos depois, mas já tarde demais.

O fato é que ele podia ter braços fortes, mas curtos demais para abraçar tantos filhos. Ele foi o escolhido. Deveria ser dado a outra família para que sobrevivesse à fome. Contam que naquele dia houve mudanças bruscas no tempo. Era o mês de março. Tempestades violentas eram interrompidas para dar lugar ao brilho do Sol. Todos tinham um certo sentimento de paz que se alternava com a inquietude. Alguns foram abraçar o rebento que se separava de seus irmãos e o viram divertir-se alheio a tudo o que se passava a sua volta e sorria como um anjo. Não houve uma única mulher que não tenha aberto um sorriso ao olhar em seus olhos. Ele não podia ainda perceber as tormentas, as águas-de-março. Para ele, naquele momento, tudo era calmaria. E a noite, como que prestando uma homenagem, era de lua cheia. Com nuvens de tormentas.

Músicas do post:

Sweet Home Chicago – Robert Johnson

Mr. Tambourine Man – Bob Dylan

Back Home – Eric Clapton

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