in utero


A sensação que ele tinha era de calor. Um calor que fazia tempo que não sentia. Não importava se lá em cima a temperatura era negativa. Respirava tão intensamente que fez uma viagem desconhecida. De alguma forma havia voltado no tempo. Havia regressado onde tudo começou. Era uma boa sensação. Seu primeiro contato humano não foi dos melhores. Aquela que a Natureza deu a missão da proteção o abandonou. Mas aquilo já não importava mais, “cada um tem sua vida e fode ela como quiser”, me disse ele certa vez. Aquela sensação que ele sentia por alguns segundos novamente, aquela proteção em que importava apenas o natural, o fez ter contato novamente com a sua essência. E era nisso que ele pensava agora que as coisas estavam um pouco loucas para ele.

Recordou-se que na sua essência seus anjos e demônios conviviam de forma pacífica, mas a medida em que o ecosistema exterior se desequilibrava, exigindo dele algo que não podia dar ou ser, uma guerra civil se iniciava e sua essência morria lentamente. Foi neste ponto então que tomou a trilha errada. Era preciso fazer algo rápido ou não encontraria o caminho de volta.

A diferença entre agir e pensar não cabia em seu comportamento. Agora, longe de toda aquela culpa católica presente enquanto esteve na caverna, tomou conta de si e pegou a estrada. Vai o mais longe que pode e sobe até encontrar um ambiente inóspito, de ar rarefeito. Assiste de cima onde estão todas aquelas pessoas. Até onde elas chegaram exigindo dele e dos demais aquilo que não possuem? “Estão todos numa vida medíocre e de merda”, deixa escapar em alta voz. As pessoas não se completam, se somam, conclui ele. E deixa escapar um leve sorriso. Era hora de voltar.

Ainda teve tempo para observar que naquela montanha haviam poucas bandeiras demarcando conquistas. Poucos haviam alcançado o cume. Sacou da mochila a única camisa sobressalente, buscou um suporte para servir de mastro e deixou ali sua marca. Na descida tudo aquilo que amava foi surgindo em seus pensamentos e agora ele tinha este objetivo: para tudo aquilo que amasse, faria daquilo a sua vida.

Cai a noite e busca proteção numa cabana abandonada. Dorme. Quando o sol começa a nascer, abre os olhos e lentamente se levanta. Está com aquela sensação de embriaguez. Abre a mochila e vê que a garrafa que havia levado está intacta. Não havia bebido nada. Era efeito ainda do ar lá de cima. Havia sido tudo real.

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