cafajestes


– Vocês já se conheciam?

– Não exatamente, na verdade já li alguns textos dele na internet. Alguns anos atrás e, de repente, já não existia o site.

– Típico dele.

– Ah! Então você sabe ler.

– Desculpe?

– Não se ofenda, mas tive dúvidas quando vi você entrando por aquela porta.

– Mas que merda!

– Então você acha que sabe algo de mim sem nem mesmo termos conversado?

– Não se trata especificamente de você. Mas de vocês.

– Rsrsrs… não entendi, talvez eu seja estúpida demais.

– Garçom, a carta de vinhos, por favor. Meu amigo aqui quer acabar com a noite dele, mas eu não volto para casa sem tomar o meu Merlot.

– O problema é que vocês são muito previsíveis, ainda que por debaixo de toda esta fantasia haja uma mulher de verdade implorando por atenção.

– Se você é mesmo bom como pensa ser, me responda: o que você acha que faço na vida? Você é escritor, então vai ser fácil para você se arriscar.

– Você certamente vem de uma família de classe média, estudou em bons colégios, tentou uma vaga na universidade pública pois assim seu papai lhe daria um carro, mas isso não aconteceu e você teve que ir para uma universidade particular, os seus pais buscaram novas fontes de renda para que você pudesse se misturar entre seus novos abastados colegas, lá você conheceu seu segundo namorado, que diferente do primeiro, ao menos tinha um carro, casou-se com ele, cinco anos depois ele pediu o divórcio por que conheceu uma mulher que julgou ser melhor que você, daí você retornou a sua carreira de advogada, entrou numa academia pensando em conhecer novas pessoas e se divertiu com elas, você se tornou independente mas não há um dia em que não acorde e pense “eu quero um homem sério para mim, quero deitar minha cabeça no colo dele e ver filmes juntos”.

– …

– Não fique surpresa. Como te disse, não se trata de você especificamente. Toda esta luta da independência feminina confundiu todas vocês. Vocês comemoram a liberdade que conquistaram, merecidamente, mas deixaram apagar a chama que existe em vocês. Somente em vocês. E nós ficamos tristes com isso. De alguma forma, vocês nos abandonaram.

– Desculpe, mas você está justificando seu comportamento cafajeste – sim, eu lia muito você – através de nossas conquistas e desejos?

– Em hipótese alguma! Alguns valores é que não mudaram com vocês. E vocês já não diferenciam lealdade de fidelidade, por exemplo.

– Hahahah… mas quando eu acordo e penso neste tal “homem sério” eu não busco este valores?

– Me diga você que foi casada com um deles. A verdade é que a paixão ficou perdida em algum lugar escondido e esta é a sua busca. Mesmo casada você vivia a frustração, a carência. Você fatalmente estaria disposta até mesmo a viver uma relação com um homem casado, desde que ele lhe desse paixão e promessas que não iria cumprir.

– Olha, eu tenho 33 anos, você pode ser um romântico ou um cafajeste incurável – já não sei a diferença – mas eu, eu… nossa, estou confusa agora.

– Querida, dado que vocês se perderam nos valores, prefiro ser um cafajeste autêntico, fiel a uma única mulher e que ela me permita ler a sua alma, a um homem sério cuja maior qualidade é ser hipócrita.

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Un comentario el “cafajestes

  1. Nossa! Foi forte… engraçado que se fosse sobre mim, não teria acertado nada. Não me reconheci em nenhuma parte dela, mas talvez seja simplesmente algo assim: previsível.
    Mas muitas de nós não sabem usar as nossas conquistas de igualdade, mesmo, admito.
    Muito bom.

    😉

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