hard sun


Hoje eu deveria mostrar meu respeito e admiração por José Saramago e não escrever absolutamente nada aqui. Mas vou escrever porque preciso e, para quem chegar ao final, há uma pequena frase atribuída a ele e que gostei muito. Há um vídeo emocionante também, dica da belíssima @renaandrade.

Solitário e assustado. Foi como ele se descreveu muitas vezes enquanto bebíamos muitas garrafas de Carmenère, religiosamente, todas as sextas-feiras aos pés da Cordilheira. Não era raro repetirmos as doses aos sábados também. Estar ali havia sido também uma fuga. Nunca me falou exatamente de quem, ou do quê, mas eu desconfiava que era dele mesmo e que havia alguma mulher na história. Era um sujeito difícil de se lidar, mas um dos amigos mais leais que já tive. Estúpido e fraterno ao mesmo tempo. Como um animal encurralado, feria e afastava quem chegasse muito próximo, mas não resistia em proteger quem tinha a ousadia de olhar em seus olhos e entender a inquietude em sua alma. Este homem nunca havia descansado.

E isso se notava na forma como escrevia, como falava ou mesmo como apreciava ficar em silêncio, contemplando o horizonte num olhar perdido e assustado. Em sua casa haviam fotos de uma mulher jovem. Eram fotos recentes. Ele nunca me falou sobre ela diretamente. Nunca soube nem mesmo o seu nome, referia-se sempre como “ela”. Certa vez estava tão frágil que se permitiu dizer que desde que a conheceu, ao final do dia era tudo por ela. Que soube que a amava quando percebeu que era capaz de se apaixonar por ela várias vezes num único dia.

Mas “ela” não estava ali ao seu lado. Estava a milhares de quilômetros dele, provavelmente seguindo sua vida, ainda que duramente, mas podia fazê-lo por que ela não tinha fantasmas como ele. Anjos e demônios viviam ao seu lado constantemente e ele já falava baixo como querendo que eles não o escutassem.

O que mais me fascinava era simplesmente estar com ele. Era um sujeito tão incrível que era impossível você não ter vontade de estar ao teu lado e ele lhe deixava tão confortável que quando você ia embora você pensava “putz, queria ser como ele”. Não era raro garotas se apaixonarem por ele por causa de suas atitudes, olhares e sorrisos. E para elas, ele sempre sorria demais.

Mas no íntimo, aquele homem tinha mais demônios que anjos ao seu lado. Sombras de um passado que nem mesmo ele consegue resolver. Ainda. Ele não se afasta por querer, mas por que precisa. Tanto é que sente falta de alguém e isso já é muito bom. Mas sabe que sempre está indo longe demais. Numa perseguição implacável para acalmar seus demônios internos.

Hoje recebi um e-mail dele me dizendo que está numa nova estrada, mais assustado e solitário do que nunca, tendo apenas o blues e o vinho como companheiros desde que fui embora de lá. Diz sentir saudades de nossos papos aos pés da Cordilheira. Não me disse, mais uma vez, nada sobre “ela”, talvez por que ela esteja em um caminho mais pavimentado e feliz. Sobre ele, eu não sei realmente se conseguirá achar o caminho de volta.

Boa sorte meu amigo.

Então é isso, não vá tão longe que não possa voltar depois.

Bom final de semana para todos vocês!

“Se tens um coração de ferro, bom proveito. O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia.” José Saramago

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