Posted in octubre 2010

quando elas dormem

“Mulheres fazem tudo de caso pensado”, diz ele para um amigo. Se já estão deitados prontos para dormir e ela pede que ele abaixe o volume da TV usará a desculpa de que o ruído não permite que ela durma, quando na verdade quer que ele preste atenção nela. Mesmo dormindo. Quer dormir sabendo que está protegida de tudo. Até mesmo de sonhos ruins. Aproveitará para seduzi-lo.

Sabe que ele ainda sem sono, e agora sem TV, irá se concentrar em seus gestos enquanto dorme. Irá notar como ela se espreguiça. Como muda o lado do travesseiro como quem escolhe os sonhos que quer sonhar. Vira-se de lado e fica de bruços. Quer que ele veja todas as suas curvas. Quer que ele sonhe com ela. Que possam sonhar juntos.

Passa as mãos pelos cabelos para livrar-se do calor, mas na verdade está se exibindo. Quer que ele veja sua nuca. Seu espaço preferido para os beijos. Está pedindo um beijo enquanto dorme. Sorri para que ele queira estar em seus sonhos. Provoca. A respiração é lenta. Seus pés e pernas repousam sobre os lençóis como um leito de rio.

Começa a ensaiar palavras que parecem não fazer sentido. Está fazendo música. Sorri novamente. Seus braços agora estão recolhidos como se ela estivesse num ventre. Foi ela quem escolheu o lado da cama. Sabia que quando vento entrasse pela janela levaria até ele o perfume do banho dela.

Ele pensa que apenas está admirando, quando na verdade foi completamente seduzido.

Música do post

Secret Garden – Bruce Springsteen

my girl

Gostava dela naquele jeans claro, justo, que desenhava perfeitamente suas curvas com tanta classe que nunca poderia ser vulgar. Estudaram no mesmo colégio e naquela época as estações do ano eram mais bem definidas. Na primavera podia-se colher flores para ela e ter uma luz perfeita sobre a blusa branca que realçava a beleza de seus seios quando ainda usava, não o primeiro, mas talvez o terceiro ou quarto sutiã. Ela prendia o cabelo delicadamente com uma presilha, dando-lhe um ar romântico, inocente e ao mesmo tempo extremamente sexy. Ele gostava de tudo o que ela fazia. Procurava motivos para ficar próximo e poder sentir o seu perfume. Se gostavam muito. Olhavam um para o outro com paixão. Mas como nada é fácil nesta vida, teve que disputar o seu amor com concorrentes diretos: os vizinhos da rua e do colégio. Cortejada, como toda garota inteligente soube se valorizar. Mas ele sabia que aquele olhar era apenas para ele. E ela gostava de mostrar isso a ele.

Ciumenta. Mesmo antes de namorarem, quando ela fazia-se presente e ele por qualquer motivo tinha que se afastar, ela sentia fortemente isso em seu coração. E esta seria uma lição que ele demoraria a aprender: ele a tocava em seu íntimo, não tinha o direito de se afastar por qualquer motivo.

Na concorrência para conquistar a garota, ele tinha uma forte desvantagem frente aos demais: havia repetido dois anos no colégio. E neste quesito, não que ela se importasse com isso, pelo contrário, dava até aulas para ele, o que obviamente seria mais um motivo para ficarem mais tempos juntos. A barreira vinha de cima: o futuro sogro. Médico e fazendeiro acostumado a lidar com todo o tipo de animal, inclusive os humanos.

O pai morava fora da cidade, mas quando estava presente, o pretendente podia ficar até semanas sem sentir o perfume dela. No máximo uma rápida conversa nos corredores do colégio. Então, buscando maneiras de se ocupar enquanto esperava uma oportunidade para vê-la, ele começou a devorar livros e revistas que não eram utilizados nas escolas. Revistas semanais, livros de política, romances. Valia qualquer coisa, desde que não utilizassem nas escolas. Ler qualquer coisa recomendada pelos professores, para ele não tinha valor.

Então, num fim de tarde foi comprar pão e quase ficou paralisado ao olhar do outro lado da rua, sentado num bar, a figura daquele que ele mais temia, mas de quem mais ele precisava se aproximar. Era pai dela, que dando pouca confiança para aquele moleque que teve a ousadia de tomar o coração de sua filha, o chamou e pediu que lhe servissem um refrigerante e o convidou a sentar-se junto a ele, o dono do estabelecimento e mais três homens. De inicio falaram sobre o nada, assuntos do cotidiano, etc. A medida em que pediam mais cervejas, mais refrigerantes ele tomava, e sentiu-se encorajado a emitir pequenas notas sobre a política, assunto em qualquer mesa de bar. As horas dedicadas aos livros e revistas finalmente fariam algum sentido. O pai dela não podia acreditar no que via. Aquele moleque estava ali dando pitacos sobre política e sociedade, falava com desenvoltura e segurança. Gostou do que viu. Esperou que outros fossem embora e quando restava apenas ele, o dono do bar e o moleque, dirigiu-se ao dono do bar e afirmou: “está vendo este moleque aqui? Quer namorar a minha filha”. O dono do bar apenas sorriu. Então virou-se para o moleque e disse: “se você quiser namorar com ela, terá que vestir suas ´calças´, ir lá em casa e pedir a mão dela para mim e a mãe dela”.

Dito e feito. A noite se apresentou e fez o pedido formalmente. Nunca mais precisou fazer isso por garota nenhuma. Ninguém mais faz. Uma pena.

Música do post

My Girl – The Temptations (vídeo)

bluebird

Enfrentar os próprios demônios não é uma tarefa fácil. Ele sabia disso. Como qualquer um, ele sofria por não saber lidar. Despertava-os e logo os via fora de qualquer controle. Queria acalma-los e para isso havia adotado a estratégia de abdicar de manifestar seus sentimentos ou o fazia de forma muito confusa até para ele mesmo. Para manter uma paz aparente, internalizava os sentimentos e percepções. Já não podia mais viver assim. Foi quando procurou o velho. Era alguém como ele. Era alguém que havia vivido algo semelhante e, por isso, podia confiar. Sentia-se bem em conversar com ele. Havia tranquilidade no tom de voz daquele homem.

Em suas conversas, o velho estava sempre a sorrir e o dizia que talvez seus demônios internos lhes pudessem ser úteis, que a paz que tanto buscava passava por eles. Junto aos demônios, haviam pássaros. Pássaros azuis. Pássaros que estavam presos junto a eles. Havia internalizado tantas alegrias e dores que já não podia diferenciar os pássaros dos demônios. A liberdade fazia-se necessária. Para os pássaros e demônios.

Os pássaros azuis são quem escrevem. São quem lhe dão as asas para que ele possa voar. São quem abraçam, dizem aos amigos a falta que eles fazem e dizem a mulher como ela é linda quando sorri ou fica triste. Os demônios, bem, os demônios o fazem acreditar que nada foi escrito, que homens não podem voar, que não existe saudade, que abraços são frios apertos de mãos e que a mulher deve acreditar que ele mente.

Música/poema do post:

Bluebird – Charles Bukowski (vídeo)

“eu te amo”

O simples é mais. Dizer “eu te amo”, é tão simples. E por isso mesmo é tão difícil. É como aquela equação de matemática que encontramos resolvida e pensamos: “por quê não pensei nesta solução antes?”. “Por que eu não disse simplesmente que a amava?”. Mas o amor, boa parte de nós já sabemos, nem sempre vem acompanhado da razão. E tentando dar razão a ele ou simplesmente por que não o compreendem muitas vezes fazem o uso banal do “eu te amo”. Como fazem da palavra “amigo”. Como se banaliza tudo por que simplesmente não se conhece as dimensões das palavras. E, logo, das suas consequências.

O sentido e significado do amor, poucos poetas e escritores conseguiram definir de forma satisfatória, talvez apenas os que, por não serem apenas poetas mas que viveram como tal, tenham chegado mais perto deste mundo simples, louco e muitas vezes sem sentido.

E acho que é a partir daí que o “eu te amo” pode ter algum significado. O viver das palavras. Muitos citam as ações, demonstrações de carinho, gestos, etc. Sim, são todos eles muito importantes e ampliam e marcam fortemente as palavras e reforçam os sentimentos. Mas gosto também da contemplação do “eu te amo” e que nem sempre é mencionado.

Contemplar também é viver. Ficar sentado num café apreciando uma leitura e vendo pais e filhos conversando com aquele olhar de proteção e carinho, ou ouvir uma mulher chorando ao telefone celular enquanto fala com o babaca do namorado que não acredita que ela esteja sendo sincera com ele, ou ver um cara solitário que está naquele lugar por que precisa, mas que queria mesmo era estar em volta daqueles que o amam e ele, muitas vezes tem medo em afirmar isso.

A contemplação do “eu te amo” vem ainda de um simples olhar para a mulher amada. Há algo melhor que ver sua amada olhando-se no espelho enquanto se arruma por horas para estar linda para você? E naquele exato momento, quando ela pensa que você nem está notando a presença dela, você diz baixinho, como que para você mesmo: “eu te amo”. E ela, sem nem mesmo ter ouvido você, volta-se e lhe dá um sorriso. Um simples e mais lindo sorriso.

Quando as palavras chegam, os sentimentos já foram vividos e contemplados. O “eu te amo” permite que eles sejam prolongados. Os mais sinceros, duram até o fim. E podem até ir além. Até que os olhos se fechem. Até mais longe que isso. Ninguém deixa alguém que ama. Ninguém permite que aquela que se ama simplesmente vá embora. Se o que foi vivido e contemplado foi amor sincero, então não há nada mais forte que isso. Nada justifica, exceto que seja banal.

Música do post:

If You See Her, Say Hello – Bob Dylan

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