Um destino implacável

Escrevendo ou fotografando, só interessa se for como arte.
O artista é escolhido e arrastado por demônios. Ele não poderá declinar da escolha.
Tentará ser como os comuns e sofrerá punições por isso. Irá roubar a mulher do amigo, será expulso, irá correr para as montanhas e beber na solidão.
Ser artista é um destino do qual não poderá fugir. E não há garantias que ao final tudo dará certo.
Terá que ser implacável para ser bom. Ele é amoral. Sua única responsabilidade é com sua arte.
Não poderá desfrutar do sucesso, caso venha a acontecer. O sucesso é como uma mulher, que lhe tomará a alma se ele baixar a cabeça.

Oh, Captain, my Captain

“OK, Marcio. Use como quiser e o chopp está aceito. Só que em São Paulo, pois aqui estou de volta para encher o “saco” dos que estão do outro lado.

Prazer e Abraço”

Respondi a mensagem agradecendo e combinamos uma data para o tal chopp, que infelizmente, acabou não dando certo. E foi tudo. Foi assim nosso ultimo contato. Era abril de dois mil e onze.

Nunca fui amigo do Sócrates. No máximo fomos “amigos” no Facebook, o que não quer dizer absolutamente nada. Nem mesmo nos encontramos pessoalmente algum dia. Ele apenas foi gentil ao atender a um pedido meu: publicar o seu texto “O Peso da Camisa do Corinthians”, num projeto que tenho em andamento.

Fui, como todos os brasileiros um fã. Um fã de poucos ídolos, porque personalidade já não se encontra em qualquer esquina. “Não querem que eu beba, fume ou pense? Pois eu bebo, fumo e penso. Não fico escondendo as coisas.”, disse ele certa vez.

Não foi por causa do futebol do Sócrates que vim a torcer pelo Corinthians. Mas por causa dele, eu não poderia vir a torcer por nenhum outro time. Sócrates me deixou sem opção. Levantou a bandeira da democracia quando todos se escondiam. O coração do Sócrates, da Democracia Corinthiana que ele ajudou a criar, estão impregnadas no manto sagrado. Como sangue que nenhum produto pode remover. Nenhum moralista de plantão pode tingir.

Em uma tarde, num domingo qualquer em Santiago do Chile, convidei o Idelber Avelar, que estava de passagem pela cidade, para comer um churrasco e beber uma cerveja comigo. Abri a porta para ele vestindo a camisa do Corinthians. Era uma pequena e gentil provocação. Mas uma homenagem também. Eu sabia que o Idelber era torcedor do Atlético-MG e não via o Timão com bons olhos, mas é apaixonado por futebol.

Era época de eleições presidenciais e nos dias seguintes consagraríamos Dilma como presidente do Brasil. Em certo momento falamos do Doutor Sócrates, amigo pessoal do Idelber. Eu sabia que alguns dias antes o Idelber e o Sócrates estiveram juntos em um encontro literário em Londres. Então pedi a ele para que nos contasse algumas histórias.

O Idelber havia sido escalado para ser o intérprete do Magrão durante o debate. Teve que se virar, pois o Doutor driblava também com as palavras. Mais tarde foram a um pub beber umas cervejas. Um jovem inglês o reconheceu. Como Sócrates não falava inglês, o Idelber teve que fazer hora extra. Uma pequena multidão juntou-se a eles e continuaram bebendo pela fria madrugada londrina. Um dos jovens perguntou a Idelber, “Você viaja o mundo todo com o Sócrates?”.

“Não, não viajo o mundo todo com ele. Dou aulas em uma universidade em New Orleans”, respondeu Idelber.

O interlocutor fez silêncio por alguns segundos e não disse mais nada. Mas não conseguiu disfarçar a decepção. Como seguir uma vida acadêmica quando podia estar correndo o mundo com o elegante nos pés, nas palavras e nos ideais de Sócrates? Para aquele jovem isto era imperdoável.

Rimos muito ao lembrar disso. O Idelber, como uma espécie de mensageiro, trazia para mim esta e outras pequenas histórias daquele que era um craque da bola e da democracia. A tarde de bate papo com o Idelber foi de pura alegria e o agradeço muito por isso.

Sócrates, Magrão, Doutor, Brasileiro, o que viveu na alegria, sem medo. Apontava na entrada da área, desconcertava os adversários da mesma forma como driblava o maior medo do Homem: o medo de ser feliz. Tocava de calcanhar a tristeza para longe e com o punho erguido comemorava a felicidade.

Vi homens e mulheres se negarem a felicidade. O medo de serem sugados, de se destruírem, de perder o que não possuem, de largarem o tédio, medo da inspiração, de se perderem em si mesmas, de enlouquecerem, da incerteza da manhã seguinte. Preferem negar as palavras, a conversa, sumir como se fossem levadas pelo vento. Pelo medo. Medo de não ter razão. A felicidade não tem razão.

Dr. Sócrates, aquele para qual a arte é intrínseca ao futebol, provou que também é para a vida.

Perdi o meu capitão.

Pelo que vale

Pelo que vale, nunca é longe demais. Não há um momento definido. Basta levantar-se e encurtar as distancias físicas e virtuais. Qualquer momento é o ideal para tomar uma atitude.
Pelo que vale, o melhor é ser aquilo que se quer ser e saberá que é muito importante estar presente.
Não há regras, tudo o que se precisa é de um espirito livre.
Pelo que vale, você pode escolher ter o melhor ou o pior da vida. Lute pelo melhor.
Pelo que vale, você irá ver coisas surpreendentes. Irá conhecer pessoas fascinantes.
Os lugares são apenas paisagens que ajudam a formar estas pessoas. Então, para conhecê-las você irá precisar viajar além dos livros. Tocar estas pessoas. Ouvir suas historias. Compreender seus diferentes pontos de vista. Até mesmo os livros possuem alcance limitado. Então será preciso caminhar.
Pelo que vale, você irá perceber que as pessoas são o que são. Você irá conhecer pessoas que se dedicam a serem as melhores naquilo que se propuseram a fazer. Irá conhecer a melhor mãe, o melhor amigo, a mais bela bailarina, o melhor artesão, o escritor fascinante, a melhor namorada, o melhor professor, a melhor cozinheira, o melhor arquiteto, a mulher da sua vida.
Pelo que vale, você irá sentir coisas que nunca sentiu antes.
Pelo que vale, espero que um dia você sinta que é capaz. Que viva uma vida da qual se orgulhe.

What a Wonderful World

Já caminhei milhares de quilômetros. Pedalei por montanhas e praias. Já naveguei por baías, rios e oceanos. Dirigi velozmente levantando poeira nas estradas de terra.

Já perdi a conta das vezes em que voei sobre o atlântico apenas para ver a beleza das ruínas.

Tudo em nome da beleza. Em nome do desejo.

Nada foi inconsequente. Não finjo amizade para seduzir.

O desejo não apela para golpes baixos. O amor repudia quem seduz por diversão.

Não pode haver pressa. Não posso apressar a mulher, pois poderia esquecê-la.

Não se apressa o amor antes que a semente da paixão se deixe germinar.

O que não é egoísmo e nunca poderá ser carência.

O desejo não é um fim em si mesmo. Isso seria capricho.

Ao torcer um pé, cair montanha abaixo, quase me afogar, machucar-me numa batida de carro, apertar os cintos em uma turbulência, fui deixando para trás o que não fazia parte de mim.

Fui ficando leve como uma cicatriz.

Percebi que meus defeitos revelam minhas virtudes.

Leio sua carta, só para lembrar do calor do seu sorriso, da sua timidez em se revelar bailarina.

A mais pura beleza. A lenta flecha da beleza me atingindo o coração. A beleza mais nobre, que não arrebata, se infiltra.

Do seu olhar que ficou. Da sua voz que não se calou. Dos teus cabelos sendo tocados pela brisa que soprava do oceano enquanto estava sentada olhando a cidade distante.

Da maravilhosa companhia que é.

Da imensa sensibilidade que descreve com imensa ternura o que parece tão trivial a olhos e ouvidos pouco atentos.

Ver o mundo com você, é muito melhor.

Sim, definitivamente, estar com você “What a Wonderful World”.

Marinheiros, escritores e um barril de rum

É a saudade ou as tempestades quem trazem os marinheiros e escritores de volta para casa?

Partimos ontem com céu azul, sem nuvens, com mar de almirante. A tarde nos reservava uma tempestade com borrifos de água gelada. Os ventos ganhavam força e a água da chuva parecia vir de todos os lados. A água do mar banhava a proa. Surfistas involuntários das ondas.

Este era o mar possível. Mesmo com capas de chuva, o frio vencia o calor e parecia atingir nossos ossos. “Uma dose de rum”. Nas poucas milhas que já naveguei até aqui, nas poucas linhas que já escrevi, nunca vi um só marinheiro ou escritor que não tenha visto o sorriso da mulher amada no fundo de uma garrafa de rum. O mesmo que agora nos aquecia do frio, da saudade.

Chegamos ao porto quando já era madrugada. Olhos sujos, sem brilho, do marinheiro, mãos trêmulas, de frio, do escritor. Ambos lançando garrafas ao mar com uma única mensagem, “Um beijo para você”.

iSad

Como podemos chorar copiosamente por alguém que não conhecemos? Sequer a vimos de perto algum dia?

No momento em que recebi a noticia de que Steve Jobs havia nos deixado eu estava mostrando a um amigo como configurar o seu novo MacBook Air. Coincidência? Pode ser.

Mas tudo o que eu via era como o mundo a minha volta havia mudado. Na minha mesa estavam um MacBook Pro, um MacBook (branco), um iPad e um iPhone. Ah! Estava também, o MacBook Air do meu amigo.

No meu MacBook Pro escrevo minha tese de doutorado, um livro de romance, faço amigos na internet, ouço música, assisto filmes e digo a pessoa que gosto o quanto ela não deveria estar tão longe, embora estes pequenos aparelhos feitos de alumínio, vidro, design e uma elegância ímpar em cada detalhe tentasse nos aproximar. Quando saio para correr a beira da praia, escuto músicas e faço um mapa do trajeto de corrida no meu iPod.

Jobs foi abandonado pelos pais. Carregou isso com ele por toda a vida. Externalizou sua dor na solidão, afastando as pessoas que tentavam chegar muito perto. Mas nunca foi egoísta. Ao contrário. Compartilhou conosco a vontade de se conectar. E o fez como ninguém. Contraditório, e por isso mesmo, interessante. Genial.

Não precisaria conhecer Steve Jobs para chorar a perda dele.

Ele está presente em minha vida desde que um professor de filosofia, quando ainda aluno do doutorado lá no Chile, me apresentou seu MacBook. Claro que um economista jamais poderia ter me apresentado um Mac. São estúpidos e previsíveis demais.

Os administradores, economistas, engenheiros, etc., certamente estão devorando livros, fazendo cursos de MBA, teses de doutorado, etc., tentando entender como Steve Jobs construiu um império, uma empresa verdadeiramente revolucionária (esqueçam o Google, ao lado da Apple de Steve Jobs, não passa de uma piada).

Estes profissionais irão gastar o dinheiro de seus pais e suas famílias tentando entender “o modelo de administração Steve Jobs”. Uma pena.

Steve Jobs acima de tudo era um apreciador das artes. Da leitura, pintura, música, cinema e, principalmente, design. As horas que dedicava a apreciar uma pintura, um objeto qualquer, logo se transformavam em desenhos para os seus produtos.

A música de Bob Dylan está nos produtos da Apple. A pintura de Picasso idem.

Está presente também a lealdade que tinha aos amigos. Aos poucos e bons. Aqueles que quando ele estava em seu inferno pessoal, quando o mundo acreditou que ele estaria derrotado. A cada um deles, lhes entregou seu maior valor: lealdade. Certa vez, uma destas amigas decidiu casar-se sob uma religião (que me falta o nome agora). Todos seus amigos a abandonaram, mas Steve Jobs estava lá ao lado dela.

Ele sabia que pensar o mundo baseado em leis escritas por professores frustrados não o levaria muito longe. Preferia ir até a Índia na tentativa de alcançar um novo estado de consciência, seja lá o que isso for.

Steve Jobs foi mais longe do que qualquer um por que por muitas vezes esteve derrotado, esteve ao lado da morte. E quando isso acontece, só há uma opção: seguirmos nossos corações.

Foi mais longe por que não absorveu a frustração dos outros. Imaginou o seu mundo e o construiu. Acabou construindo o de todos nós.

Sem Steve Jobs, um pirata, um hippie, um homem que teve a sorte de destruir todos os sentimentos do passado para construir sua própria família, o futuro, agora ficou mais longe.

Obrigado Steve Jobs. 

O presente de Deus

“Quando Deus dá um dom ao Homem, também põe na sua mão um chicote; e o chicote serve apenas para o autoflagelo”.

Truman Capote, Prefácio de Música para Camaleões

A medida certa de todas as coisas

Acendo um cigarro enquanto penso sobre o capítulo que devo escrever. Estou no b_arco, um centro de cultura em São Paulo.
Vejo seus muros pintados em declive e não em simetria com a casa, como penso que deveria ser.
Vejo mais de duzentos livros em minha frente. Escolhi apenas um para folhear.
Caminhando até aqui, vi muitas Mercedes Benz, SUVs e outros veículos exclusivos. Mas prendi meus olhares nos Fuscas e Harley-Davidsons.
Escuto duas belas mulheres falando sobre o fim de seus casamentos. Uma delas esteve por doze anos casada com um judeu. Foi a Jerusalém após o divorcio.
Noto que a pintura do muro sincroniza com a rua. Faz muito mais sentido. Revela a geografia do lugar.
Poderiam existir duzentos mil livros, ainda assim escolheria aquele para folhear. Ter duzentos apenas facilitou a minha busca.
Não importava a exclusividade. Eu buscava beleza e personalidade nos veículos.
O divorcio levou aquela mulher a conhecer o marido mais do que quando estava com ele.
De alguma forma, há uma medida certa para todas as coisas.

A paixão não tem endereço

A paixão não tem endereço. Como um barco onde cada porto é sua morada. A paixão voa com os ventos, como pássaros que buscam as melhores árvores para plantarem seus ninhos. A paixão só não sobrevive debaixo d’água. Quer emergir para poder respirar. Cada respiro é um novo encontro.

Se conheceram num sarau. Ela, que trabalha para um jornal, ficou próxima. Como quem quer saber todas as notícias.

Ele, filho do vento, se aproximava como uma leve brisa.

Ele falou em seus ouvidos segredos incompreensíveis. Ela ria por que as palavras não importavam naquele momento.

Dançaram com os lábios. Distraiam-se para que ficassem atentos um ao outro.

Ela abdicou das amigas por que apostou na paixão. Ele contou com o amigo por que apostou na paixão. A primeira foto foi feita pela segurança de trânsito. Seus corações estavam em alta velocidade.

Tiveram trinta minutos de conversa em outro lugar para que conhecessem suas vozes.

Ela gentilmente abriu a porta e depois de tanto tempo a paixão voltava a lhe fazer visita.

o mar possível

- E por que o mar?

- Escolhi ser pescador por que homens do mar não se importam em saber a que família você pertence, qual o seu status na sociedade. Querem apenas saber se você atravessou bem uma tempestade ou uma terrível calmaria. O que você tem a dizer. Marinheiros que voltam a terra firme e encontram os seus. Muitas histórias para contar, muitas experiências para compartilhar. Além disso, não se deixam enganar pela aparente calmaria marítima. Sabem que a tempestade não escolhe dia e nem hora. Pode ser de dia para que a luz ilumine o seu desespero, pode ser a noite para que se sinta completamente sozinho. E decidi ser pescador por que eles querem o quê há no fundo e por isso jogam suas redes, e as puxam novamente. Querem voltar com o barco cheio. Mas mesmo quando o barco volta vazio, eles sabem que o mar talvez seja mais profundo do que as suas possibilidades. Então esperam por um outro mar possível, enquanto costuramos nossas velhas redes e contamos  nossas histórias a quem se dispõe a ouvi-las. Não importa se vamos apenas contar histórias ou comer um grande peixe, de todas as formas estamos desfrutando do produto de um trabalho. Um trabalho que exige que se vá mais longe e mais ao fundo, e cada vez mais. Pescadores e escritores, na essência, fazem o mesmo. E eu já não podia continuar escrevendo.

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